As listas litúrgicas enumeram as diversas categorias
do clero, depois as virgens; no fim, as viúvas. Talvez, não
erramos ao supor que os virgens, do sexo masculino,
nunca se organizaram em grupo, mas se intercalaram nos
vários estágios do clero.

De modo que, virgem provavelmente
sempre se refere ao sexo feminino. Na terminologia
que deparamos a partir do século lI, os homens são
chamados ascetas, eunucos ou continentes. A partir do
século IV, chamam-se ascetas ou monacoi (em latim, confessores).

As moças, virgens ou virgens consagradas (sacras).
Na sexta-feira santa rezamos ainda: “pro episcopis…
ostiariis, confessoribus, virginibus, viduis et pro omni
populo Dei”.

Confessor, no sentido de sobrevivente ao
martírio; viúvas não são todas as idosas, mas aquelas
que, após breve casamento, não contraíram novas núpcias.

A Didaqué (fim do século I) menciona apóstolos e
profetas itinerantes, vivendo pobres e sem família. Eusébio faz menção honrosa destes anônimos da primeira
geração, na sua História Eclesiástica (3,37).

Um deles,pertencendo aliás, à terceira leva, dos meados do século segundo, chama-se Melito de Sardes, o conhecido escritor e apologista, que Polícrates de Sardes orna com o
nome evangélico de Melito o eunuco (5,24).

O Pastor de Hermas (150 pC) recomenda a vida dos e das continentes.

Justino fala de cristãos crianças de 60 e 70 anos, como também da prática voluntária da pobreza entre eles (I 29; 14,2; 15,6).

Atenágoras diz que muitos cristãos vivem continentes a fim de unir-se melhor a Deus, aludindo a 1Cor 7 (Apologia 23). Minucius Félix salienta a virgindade entre cristãos no c. 31, e a pobreza voluntária, no c. 36.

Temos ainda o testemunho pagão. Galieno, do tempo
do imperador Septímio Severo, atesta, com admiração,
a continência de homens e mulheres entre os cristãos.

Não pode faltar o fundo escuro, a heresia: o materialismo
grosseiro do maniqueísmo, no século terceiro, preparado
e como que inculcado, incubado pelo gnosticismo.

Já no século segundo, o excesso de Marcion, proibindo
como imoral o matrimônio, o uso de vinho e de carne. O
mesmo vemos no encratismo, o qual provavelmente não
estava organizado como seita, mas era um movimento
ideológico de moral puritana, proibindo matrimônio, vinho e carne, a famosa trilogia má.

E a nota pitoresca: o bispo Pýnitos de Cnossos, do tempo de Marco Aurélio, entendeu de exigir o celibato de todos os seus diocesanos.

Mas o cristianismo autêntico sempre entendeu a renúncia como um ato não obrigatório, mas espontâneo, de generosidade espiritual.

As virgens viviam na casa paterna. Talvez também
reuniam-se três ou quatro, morando juntas na mesma casa.

Sto. Antão, antes de embrenhar-se no deserto, coloca
sua irmã num parthenion; mas já estamos no ano 300.
Espera-se delas uma vida cristã mais fervorosa, um vestuário modesto.

São muito estimadas, têm na Igreja um
lugar próprio, logo após o clero: isto é certo após o século
IV; não consta, se nos séculos anteriores fora assim.

Para entrar a fazer parte desse grupo teria havido
alguma cerimônia religiosa, ou ao menos uma declaração
perante o bispo?

Não sabemos, por falta de documentação
do século II. A partir do século III, a virgindade é “estado”
de vida.

A partir de Tertuliano dispomos de textos
que nos informam. “Não se pode mais duvidar a respeito,
declara Metz (Consecration des vierges, 1954, p. 60).

As expressões usadas não deixam dúvida sobre a
natureza do compromisso assumido pelas virgens. É mais
que uma simples resolução de renunciar ao matrimônio.

As expressões correspondem bem à definição de voto:

promessa feita a Deus. A promessa era feita in facie ecclesiae, isto é, em cerimônia ritual, litúrgica; é possível e
provável.

Para o século III faltam as provas. Certo para o
século IV.

Mas o voto feito a Deus em particular teria sido
comunicado ao bispo, o qual informaria à comunidade
cristã, pois já era estado de vida.

Teologia das Realidades Celestes

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