Na Tradição Apostólica de Hipólito, espécie de ritual
litúrgico, as virgens figuram entre o clero.

A escala hierárquica é a seguinte: bispo, presbíteros, diáconos, confessores, viúvas, diaconisas, leitores, virgens, subdiáconos, leigos, catecúmenos. “Uma virgem não recebe a imposição das mãos, mas sua própria escolha a faz virgem”.

Entendemos: não é eleita por votação, pelo levantar das
mãos, como nos cargos eclesiásticos, mas ela decide espontaneamente.

A menção das virgens, nesse ritual litúrgico,
faz pensar numa cerimônia litúrgica de consagração
das virgens. Elas estão encaixadas entre leitores e subdiáconos.

Estamos em 220 pC. Hipólito morreu mártir em
235.Tertuliano confirma que ascetas e virgens são numerosos na cristandade. Vivem na família. Não têm voto de pobreza, como deduzimos de suas críticas veementes contra as ricas que, embora consagradas a Deus, pretendem conservar ainda algum luxo, alguns cocktails da dolce vita, como teatro, balneário, banquetes suntuosos e todo o luxo da moda. Aliás, Tertuliano, partindo de 1Cor 11, exige que todas as moças solteiras usem, em público, o véu das senhoras casadas.

E para firmar a castidade pré-matrimonial, recorre a expressões fortes e bonitas, dizendo que as moças cristãs são esposas de Cristo (argumento na linha de 1Cor 6,15), por sua inserção no corpo místico, pelo batismo.

Mas encontramos as virgens que se consagraram a
Deus “se Deo vovit” (PL 1,1294). “Se alguma é virgem, e
se propôs (proposuit) santificar o seu corpo”… (PL 2,951).
Propositum é o termo técnico usado na Idade Média adentro (Metz). O termo voto, generaliza-se com a escolástica.

Sto. Ambrósio usa os termos “profiteri virginitatem,
Christo se dedicare, Cristo se spondere, Cristo profiteri” .

Ainda um texto significativo de Tertuliano (PL 2,953),
fala de moças que retardavam o casamento, ou por pobreza, ou por meticulosidade dos pais, ou per continentiae votum. Se esse voto era feito em público, na igreja, não consta. Tem lugar próprio na igreja, no culto? PL 2,968 refere-se, provavelmente, à ostentação de certas moças casadoiras, na hora do culto.

Cipriano deu-nos a comovente declaração que “as
virgens consagradas são a porção mais bela da Igreja”, e
exclama entusiasmado: “floret ecclesia”, a Igreja está em
flor, coroada por tantas virgens (PL 4,455). “A flor do vergel eclesiástico é a parte mais ilustre da grei de Cristo”
(PL 4,391.455).

A consagração é in aeternum, por toda a eternidade.
As virgens decretavam seu estado de forma definitiva (PL
4,371.375). São esposas de Cristo. Faltas contra a castidade
tornam-nas “adúlteras, não do marido, mas de Cristo”
(PL 4,473). E tais faltas devem ser reparadas, como o
adultério, pela penitência pública e pela ex-comunhão
(privação da comunhão eucarística).

Cipriano menciona a possibilidade de um matrimônio legal, para prevenir novas
quedas; quer dizer que ele atribui ao bispo o poder de
dispensar o voto. “Se não querem ou não podem perseverar, é melhor que casem” (4, 378). As outras, arrependidas, têm de fazer penitência (4, 381).

Não professam a pobreza evangélica, embora Cipriano
o desejasse. Inculca o dever da esmola. Não há
indícios de um vestuário especial.

Cipriano critica nelas o uso da seda e da púrpura, do baton, do pó preto ou vermelho e das pinturas. Ele junta esmolas para resgatá-Ias do cativeiro dos númidas (4,371).

Teologia das Realidades Celestes