Orígenes

Sobre essa base teológica da doação, Orígenes
constrói toda a espiritualidade própria dos ascetasvirgens:

– Intrépido em apregoar a pobreza evangélica, não
só para os consagrados mas para o clero todo, comentando o livro de Josué, lembra que os sacerdotes e levitas da antiga lei não receberam parte na distribuição da terra santa, porque, Deus era sua herança.

Assim há, na Igreja do N.T., “alguns que pela força da alma e pela graça dos méritos precedem a todos.

Deles se diz que o Senhor é a sua herança… São poucos e raros… A parte maior, mais numerosa, segue a via comum das virtudes, em boas obras, e são do agrado do Senhor”.

Mas Orígenes insinua em seguida que sacerdotes e levitas do A.T. prefiguram as palavras do evangelho: “Vai, vende tudo e terás um tesouro no céu” (Mt 19,21); “Se alguém não renunciar a tudo o que possui” (Lc 14,33);

“Quem não odeia pai e mãe, etc.” (Lc 14,26; 12,9-11).
No comentário de Mateus, desenvolve mais uma idéia:
fala do jovem rico; da vida pobre da comunidade de
Jerusalém…

“Quem quer ser perfeito, deve obedecer à palavra de Jesus: vende tudo e dá aos pobres.

Agora, seria tarefa dos generosos e dos que têm qualidades que ornam um bispo, seria tarefa destes convidar e exortar os que podem a colocar tudo em comum, para as necessidades da vida… Um exemplo da concórdia dos fiéis no tempo dos apóstolos”.

Aponta aqui um ideal monástico, sonhado e realizado um século mais tarde.

– Com particular carinho, trata Orígenes da oração.

Os contemplativos estão na casa de Deus. Os ativos ficam
no vestíbulo da entrada. “Dediquemo-nos à palavra
de Deus, e meditemos a sua lei, dia e noite.

Deixemos tudo de lado e ocupemo-nos de Deus. Treinemo-nos nos testemunhos de Deus, isto é, estejamos convertidos ao Senhor” (12,316).

– O apego às criaturas priva-nos da liberdade da
gnosis, a “contemplação”.

“Como podemos encontrar a liberdade, estando assalariados ao século, servindo ao dinheiro? Servindo aos desejos do corpo? Eu mesmo me acuso.. (dinheiro e prazer não me prendem mais) mas sou ávido de louvor e ando à procura da glória humana… E enquanto procuro tais coisas, sou escravo delas” (In Exodum
12,386).

– Comentando Nm 5, amplia o mesmo tema de uma
maneira sumamente espiritual. Os madianitas venceram
os seicentos mil israelitas.

Depois da oração de Moisés (Nm 31), doze mil israelitas venceram os madianitas, para nos ensinar que “israel não vence pelo número de soldados, mas por sua santidade e piedade; essa é que vence…

Daí, também: Um deles persegue mil e dois deles
põem em fuga dez mil, se eles observam a lei do Senhor”
(12,764).

“Portanto, vê-se que mais vale um santo rezando do
que numerosos pecadores trabalhando… Procura pois,
em primeiro lugar a justiça de Deus e conserva-a.

Observando, obtendo, conservando essa, ela te sujeitará todos os teus inimigos… Deveras, há tanta vaidade e tanto vazio no mundo, que o soldado de Deus deve superar e vencer!

Vence a vaidade do mundo quem não faz nada de supérfluo, nada em vão…”

(Parece-me estar ouvindo São João da Cruz). Ouça:
“Vã é toda ação e toda palavra dentro da qual não há algo
para Deus” (12,766).

“Separar-nos do mundo, entendo.
não do lugar ou do país, mas na vivência” (12,630).

– Em Levítico 11, faz alusão ao voto dos nazireus,
“que se consagravam a Deus por três, quatro anos, ou
por quantos quisessem”. Infere-se daí que o voto da virgindade podia ser limitado a um prazo temporal e não era necessariamente perpétuo, vitalício e irrevogável? Não.

Comentando Rm 9,37, Orígenes se explica: quanto ao
jejum e à abstinência (do vinho e da carne), cada asceta
decide como quer, por tempo limitado.

Mas, no tocante à virgindade, não se conhecem limites, porque é doação, doação de toda a pessoa, sagrada para o culto de Deus.

Usar objetos ou pessoas sagradas para uso profano é
roubo no sacrário (12,530-531).

Orígenes mostra-se, na sua doutrina ascética, equilibrado,
compreensivo, relegando os entusiasmos para sua vida pessoal.

Todavia, ele não esconde que seu ideal é a virgindade, a qual segundo ele, implica uma consagração total a Deus, abrangendo portanto, todo o campo da ascese cristã. O compromisso através de voto formal, aparece com nitidez.

Mas não ficamos sabendo se existe já uma homologação
oficial por parte da Igreja. Seria então, voto público,
não apenas particular.

Favorável é um texto em Números 2,1: Orígenes recorda o bom exemplo do clero e sua importância:

“Eis tal o bispo, tal o presbítero, tal o diácono. E
o que então dizer das virgens, dos continentes ou de todos
que se destinam à profissão da piedade?” (12,591).

Ascetas e virgens professam piedade, devoção, religiosidade; e aparecem misturados aos quadros da hierarquia.

Já são, portanto, categoria eclesiástica.

Teologia das Realidades Celestes

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