Amor ao próximo

“O motivo de amar o próximo é Deus; isto é, devemos amar no próximo que ele esteja em Deus” (II II 25,1).

“O próximo é amado pela caridade, porque está em Deus, ou a fim de que esteja em Deus” (Caritate,

4). O amor de Deus é causa e razão do amor do próximo” (III Sent. 30,1,4).

Na teologia tomista, a vida religiosa é um modo de praticar o amor de Deus, já que a perfeição cristã consiste na perfeição do amor.

Os três votos dão a nota especifica:
fazem com que o progresso espiritual “seja mais fácil, mais expedito, mais seguro, mais firme” (Quod. 1. 4,24).

Os votos removem obstáculos. Limpam o terreno sobre o qual se deva erguer o edifício espiritual, todo feito de amor; outro material não é aceito pelo arquiteto. E no alicerce,
para começar, três grandes atos de amor, os três conselhos evangélicos.

Os três votos monásticos não são essência da santidade.

Sua tarefa é desembaraçar o terreno, criar espaço para livre expansão do amor divino. São a estrutura externa, mas com atos de amor de Deus. Só assim é que o Pai aceita a entrega do edifício.

Holocausto

A doutrina conciliar sobre o estado religioso pode ser resumida em três pontos, segundo LG 44:

1)é uma doação a Deus;

2) vinculada pelos votos;

3) é sinal escatológico.

O estado religioso monástico é uma consagração.

“Todo cristão é consagrado a Deus pelo batismo”. Mas a profissão dos três votos aprofunda e amplia esta sagração,
dando-lhe maior plenitude. “É uma entrega total ao serviço de Deus” (LG 44).

Característica da vida religiosa é essa totalidade da entrega a Deus, sem delongas, sem
adiamentos provisórios.

E qual é esse serviço de Deus? Sem dúvida é o reino de Deus. Não é o apostolado da Palavra; pois excluiria as ordens contemplativas. O religioso, o monge, contribui para o reino de Deus com seus três votos.

Ou, desçamos a uma camada mais profunda: ele contribui para o reino com todo o seu amor a Deus; e seus votos, suas três renúncias,
são estímulos a afervorá-Io cada vez mais. O
monge dá ao Corpo místico, dá e deve dar, maior amor, maior prece, maior penitência (LG 44; PC 7).

Mais desimpedido, mais desembaraçado das preocupações terrestres, cabe ao monge cultivar o “fervor da caridade” (LG 44) com a totalidade de sua entrega a Deus. Pois, ele se
fez propriedade “do Deus sumamente amável” (LG 44).

A todo o povo de Deus, Nosso Senhor oferece essa via. Mas, de um modo peculiar, propõe aos discípulos, no evangelho, a observância dos múltiplos conselhos evangélicos (LG 42).

Aos seus discípulos, Jesus recomenda a
via escatológica, descrita pelo Concílio em LG 48, a via das renúncias para mais de perto seguir-lhe as pegadas.

Todo o povo de Deus, como Igreja peregrinante, tem participação na via escatológica segundo LG 48. Mas ao estado
religioso incumbe a espiritualidade escatológica de uma maneira formal e total.

Sto. Tomás denomina essa entrega total a Deus
com o nome bíblico de holocausto. Em II II 186,7, resume o estado religioso num esquema de três pontos:

1) É uma via do amor de Deus.

2) Para seu livre exercício a ele se
liga pelos votos.

3) “É, de certo modo, um holocausto pelo
qual alguém se oferece a si próprio e todos os seus haveres, a Deus”.

Sto. Tomás completa aqui um texto de Sto. Agostinho na De Civitate Dei (10,6): “O homem consagrado a Deus e ligado a Deus por voto é um sacrifício”.

Em seguida, Sto. Agostinho expõe que todo cristão batizado é vítima e sacrifício. Pelo voto batismal ele é oferecido como vítima no sacrifício de Cristo. Mas o religioso, o monge é
vítima em maior plenitude.

Sto. Tomás acrescenta: “Os que vivem no mundo reservam algo para si e algo doam a
Deus. Mas os que vivem no estado religioso entregam-se totalmente a Deus e entregam-lhe tudo quanto possuem” (II II 186,5).

“Eles subjugam-se ao serviço de Deus oferecendo-lhe como que um holocausto (II II 186,1).

Desses holocaustos, vítimas que Jesus encaminha à via das renúncias escatológicas (Mt 7,13), desses Jesus espera maior contribuição para o Corpo místico, contribuição de maior fervor, maior amor, mais oração, mais penitência, esses elementos que fecundam seu reino na terra (LG 46).

 Teologia das Realidades Celestes