Virgindade

Mateus 19,10-12. O Logion é seguramente autêntico,declara Bultmann. A rudeza da linguagem e o inaudito da mensagem não poderiam ser inventados; garantem a autoria
de Jesus. Blinzler sugere que os fariseus teriam apelidado Jesus de eunuco por estar ainda solteiro, aos trinta anos de vida.

Sugestão válida, considerando que o Talmud
é casamenteiro e condena o celibato com acrimônia.

Mas no tempo de Cristo havia os essênios e seu convento em Qumran, perto de Jericó, estava florescente. Jesus podia apontar esses colegas (aliás, bastante afins aos fariseus).

O Talmud só conhece duas classes de eunucos, não três, como Mt 19: ser eunuco de nascença era castigo de Deus; ambas eram ridicularizadas. O Talmud reflete a teologia judaica dos séculos posteriores, e sua atitude é
às vezes, reação contra o cristianismo, como aqui na questão do celibato.

Dupont recusa-se ver em Mt 19 a recomendação do celibato. Não se fala de solteiros. Jesus diria que o marido separado ou abandonado pela esposa não se pode casar novamente; deve ficar eunuco, por causa da nova lei que não permite o divórcio.

Mas Dupont esquece-se da exclamação
de São Pedro (19,10): “Nesse caso é melhor
ficar solteiro; convém não casar.” É a esta palavra de Pedro, que é de uma franqueza ímpar, que Jesus responde.

E assim mais uma profecia da antiga lei se cumpre:Isaías 56,4. Os eunucos, excluídos pela lei de Moisés de toda participação do culto, terão parte no templo messiânico.

E terão nome melhor que os filhos e filhas da casa.

“Dar-Ihes-ei um nome eterno”. A virgindade é um sinal dos tempos novos que o Messias trouxe. “Serão como crianças” (Mt 19,13). “Serão como anjos” (Mt 22,30).
Naturalmente, entenda-se, eunuco em sentido figurado.
Como o Lógion, de cortar mão ou pé (Mt 5,39).

O apóstolo repete o convite de Cristo em 1Cor 7.
Convite, e não preceito. Deus quer deixar lugar ao heroísmo.

Por que virgindade? Um fim secundário: livrar de preocupações (1Cor 7,32), aliás justas e necessárias, como as de Marta atarefada. Fim simbólico: o amor do reino é sobrenatural. O novo reino de Deus transcende a criatura.

Fim primordial: amar a Deus, (1Cor7,33); virgindade: por ter Deus ciúme do nosso amor indiviso. Muitos respondem hoje que isso não tem cabimento. Mas convém recordar que o amor humano é o único concorrente
sério, deixando de lado o amor próprio, que é sem dúvida chefe e dominante do coração humano.

Avareza por amor ao dinheiro, pela mania de colecionar é rara. Restam os prazeres da mesa, manjares e vinhos. Mas o amor supera
a todos.

A palavra final está com o Concílio (LG 42): “Entre (os conselhos evangélicos) sobressai o precioso dom da graça divina, que é dado a alguns pelo Pai, para que na virgindade e no celibato se consagrem mais facilmente,
com o coração indiviso, a Deus somente. Esta perfeita continência, por amor do reino dos céus, sempre foi tida pela Igreja em singular estima, como sinal e estímulo da caridade e fonte peculiar de fecundidade espiritual”.

Obediência

O terceiro voto encontra sua base evangélica na palavra que Jesus dirige a apóstolos e discípulos: “Vem, segue-me”. Jesus vivia sob a obediência ao Pai de uma maneira, por assim dizer, ostensiva. Já no batismo declara
ao precursor: “Estou debaixo de ordens” (Mt 3,15).

Depois, o quarto evangelista mostra como Jesus considera esta obediência ao Pai como tarefa, como sentido de sua missão (Jo 4, 24; 6, 38; 1O, 18; 12, 15).

São Paulo rematacom o texto sublime, inigualável de FI 2,8: “Cristo obediente
até à morte, e morte de cruz”. A humanidade afastara-se de Deus por um ato de desobediência; ser retorno será fazer em tudo a vontade do Pai (Hb 5,8; 10,5).

Seguir a Cristo, também em sua obediência total ao Pai, foi sonho e ideal já dos anacoretas, que se colocaram sob as ordens de um diretor espiritual. Quando da fundação dos conventos cenobitas, a obediência encontrou
naturalmente seu objeto: obedecer a regra e ao abade, como representantes da vontade de Deus, Cassiano já indica esta ligação da obediência com a vontade de Deus.

A hagiografia tem exemplos autênticos
do apreço em que Deus tem a obediência evangélica. A ascética teórica frisa com razão que a obediência é a maior renúncia, por atingir o ponto mais vital e mais sensível
da psiqué humana, a vontade própria, expoente máximodo ego fechado em si mesmo.

Voto

Por que estes três votos? Porque abrangem a existência humana em todas as suas dimensões. Assim, é realmente doação total, holocausto. O quarto voto, acrescido em várias ordens aos três votos essenciais, ou expressa o carisma peculiar da ordem e de seu apostolado (obediência ao Papa, na Companhia de Jesus; redenção dos cativos, nos mercedários; ensino, enfermagem, no Bom Pastor…), ou visa manter o fervor espiritual: voto de humildade, voto de pobreza, voto de viver vida de quaresma;
voto de perseverança, voto de clausura perpétua…

Por que a profissão religiosa não é sacramento?

Porque essa consagração monástica é só a continuação,
radicalização, plenificação da consagração batismal e dos seus compromissos.

Por que se obrigar por voto? Assumimos graves, gravíssimos compromissos sem voto, contratos jurídicos, matrimônio. Há o juramento para firmar compromissos.
Mas pelo juramento não dou nada a Deus. Chamo-o como testemunha da minha vontade de dar, de fazer isto ou aquilo. Pelo voto dou a Deus um presente; voto é doação e, por sinal, doação para o culto divino. Os objetos votados,
passam a ser propriedade de Deus. Voto transfere domínio.

O voto solene exprime-o ainda melhor por entregar a Deus até o direito de possuir bens, o direito de casar-se, o direito de fazer a vontade própria.

Os objetos votados tornam-se propriedade de Deus.
São sacros como o culto de Deus. Pelo voto de castidade,a pessoa toda fica consagrada ao culto de Deus. O votoda obediência atinge o ápice, porque se compromete a fazer sempre a vontade de Deus, expressão máxima do
amor de Deus. “O homem não pode dar a Deus presente maior que a sua própria vontade” (Sto. Tomás, II II 186,5).

Oportuno o texto conciliar (LG 44): “Esta consagração (ao serviço de Deus) será tanto mais perfeita quanto mais for firmada por vínculos mais sólidos e mais estáveis;
e assim, melhor, representar Cristo unido à Igreja, sua esposa, por laço indissolúvel”.

“Feliz necessidade que te obriga ao melhor” (Sto. Agostinho).
[Aqui]Um voto, uma promessa, feitos a Deus devem estar ao alcance humano. Se não, de auxílio torna-se empecilho à vida espiritual. Por esta razão, as regras monásticas não querem obrigar sob pecado. O amor de Deus
não pode ficar sob voto. Pois, ele já é suprema lei.

E prometer e amar a Deus de todo o coração, com todas as forças, dá vertigem. Não sabemos quando podemos parar um pouco e tomar fôlego… Mas não é para parar mesmo.

Ainda no fim da carreira (ou vôo) temos de acusar-nos, como faz de vez em quando na confissão uma criança, com aquela singela delicadeza: “quanto ao primeiro mandamento,
não amei a Deus de todo o coração.” Sorrindo,
respondemos que isto é pecado de todos nós, seres humanos, com poucas exceções.
Os três votos monásticos não são a essência da vida espiritual, da santidade cristã. São meios para alcançá-
la pelo caminho mais curto. Sua tarefa é desembaraçar o terreno, criar espaço para a livre expansão do amor divino.

São estruturas externas da vida monástica. Mas o enchimento das paredes deve ser feito, não com atos de virtude, mas com atos de amor de Deus. Só assim é que o Pai aceita a entrega do edifício.

Teologia das Realidades Celestes

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