FORMAS VARIANTES

Há várias formas e maneiras de viver a vida consagrada.
Elas mudam no decorrer dos tempos adaptando-se ao ambiente. Não há modelo único. Atualmente, associamos vida religiosa com convento, mosteiro. Mas não foi
sempre assim.

Nos primeiros três séculos, o monge ou a monja ficavam morando em sua casa, com a família. Depois, os desertos do Egito e as montanhas da Síria povoaram-se, com anacoretas. Não para fugir do mundo (pobreza e castidade podiam-se praticar muito bem nas cidades), mas a solidão favorecia a vida de oração.

Depois, surgiram os mosteiros. Os anacoretas saíram do seu isolamento, que tem vantagens espirituais, mas também seus perigos.

A convivência em comunidades monásticas, cenobíticas, invenção de São Pacômio, contribui com grandes vantagens para se atingir o ideal monástico: melhor formação,
apoio moral.

Foi um modelo bastante feliz e eficiente, como
atesta a história eclesiástica. Os Institutos seculares, de uma ou outra maneira, retornam ao modelo primitivo, ao anonimato, como nos primeiros séculos.

Cada qual procure o lugar que Deus lhe predestinou. Na vida conventual ou cenobítica, cristalizaram-se três tipos de vida: ativa, contemplativa, apostólica.

Vida ativa

Há um primeiro binômio: vida ativa – vida contemplativa, (isto é, mística). Assim, Clemente Alexandrino, Orígenes, Cassiano. Significa vida ativa a prática das virtudes.

Vida contemplativa consiste na leitura da Sagrada Escritura e na oração pura (contemplação infusa). É evidente que o cristão perfeito deve viver estas duas vidas, com intensidade (cf. II II 180,2).

Outra é a focalização de Sto. Tomás, neste binômio: teoria – ação, ou vida contemplativa – vida ativa. Nos termos teoria – ação, emprestados da filosofia grega-pagã,
podia restar um ressaibo intelectualista, embora já Clemente e Orígenes usassem os dois vocábulos legitimamente, insuflando-Ihes conceitos cristãos.

Sto. Tomás divide a vida monástica nestes dois tipos: mas a base não é nenhuma teoria – visão contemplação, mas a virtude central de nossa fé: o amor.

“O estado religioso visa a perfeição da caridade de Deus e do próximo. Ao amor de Deus pertence diretamente a vida contemplativa, a qual deseja dedicar-se só a Deus.

Ao amor do próximo diretamente pertence a vida ativa, que cuida das necessidades do próximo” (II II 182,2). Ao campo da vida ativa, dedicada ao próximo, pertencem todas as obras de caridade: enfermagem, educação e ensino, orfanatos, asilos de velhos.

Obras estas que tomaram um surto brilhante no século XIX pelas novas congregações. Na idade média estas tarefas estavam aos cuidados dos e das terceiras.

Desta categoria são também as ordens militares e a ordem dos mercedários, obras características do ambiente medieval.

Adverte Sto. Tomás que essas obras externas se fazem e se façam “com vista em Deus, de modo que a ação derive da contemplação” (188,2).

“A vida ativa seja dirigida pela vida contemplativa” (182,4). “O princípio da vida
ativa é o amor por Deus só” (De Caritate, 4,8).

Não havendo essa preocupação centrada em Deus, não há estado religioso de vida ativa. Há só um clube de beneficência, de caridade corporal ou intelectual (ensino).

Pode ser um agrupamento católico de beneficência ou mesmo de ação católica apostólica, mas não é estado religioso, não é vida consagrada.

A vida religiosa ativa visa necessariamente, em primeiro lugar, o fomento da vida contemplativa, isto é, da vida interior e as tarefas da vida ativa ficam-lhe subordinadas.

“Todos os religiosos têm isto em comum, que se devem dar inteiramente ao serviço de Deus” (188,1).

Vida mista

Não há esse tipo de vida monástica-religiosa. Entender vida religiosa mista como uma mistura de elementos da vida ativa com elementos da vida contemplativa,
é um calembur (parece que FERRARI, Biblioteca Sancta, apresentou pela primeira vez, esta definição), pois atividade totalmente dedicada ao serviço do próximo, sem nenhum exercício de piedade, oração, meditação,
missa, comunhão cotidiana, não é vida religiosa.

Mista neste sentido é a vida contemplativa. Nos
mosteiros de clausura há as horas de trabalho, por necessidade e por razão de higiene psíquica, há as horas de estudo teológico, dogma ou espiritualidade (Cf. Cartuxos).

Escreveu Lottin: “Na prática, a tal vida mista se faz pouco a pouco uma péssima mistura de elementos ótimos, frutuosos para nenhuma das partes, nocivas para ambas.”

“A superioridade da vida mista, por vezes, é mal
compreendida. Certas congregações dos nossos tempos pretendem praticar a vida mista e achar-se portanto na categoria mais perfeita de institutos religiosos. Em concreto, restringem-se àqueles exercícios de piedade rigorosamente
prescritos pelo cânon.

E no mais, passam quase toda a jornada em ocupações de natureza bem profana, como ensinar escrita, matemática, costurar, passar
roupa, fazer tricô, tratar de doentes, dos idosos, cuidar da cozinha, varrer a casa… É dedicação louvável, mas não é nenhuma vida contemplativa mista” (Jombaert).

Vivam-se, sem descontos, todas as práticas da vida contemplativa. E o tempo restante, aproveite-se para dedicar-se ao próximo. Sto. Tomás nunca usou o termo vida mista. E quando ele supõe uma mistura, entende obras de apostolado direto. E não obras de caridade, de beneficência, por mais necessárias que sejam elas na vida humana.

Chama-se isto, vida ativa. Nas congregações modernas, há facilmente um excesso de atividade externa; às vezes, nem o mínimo prescrito pelo Código se pratica.

Sem meditação é impossível progredir na vida interior. Somos humanos, instáveis

Vida contemplativa

Todas as formas e maneiras de realizar a vida consagrada, também as congregações mais ativistas, têm como primeira finalidade, segundo o Vaticano II, “renunciar ao mundo e viver só para Deus” (PC 5).

As diversas modalidades são moldes de praticar o amor de Deus (vida ativa, vida contemplativa, vida apostólica), sociedades de vida comum, institutos seculares. E de todos esses moldes, o mais apto para atingir essa finalidade parece ser a vida contemplativa.

Entenda-se a contemplação sempre como amor a Deus. A intuição da verdade visa terminar no amor da Verdade Eterna. Vamos repetir: Esta é a suprema perfeição, que a verdade divina não seja só contemplação e contemplada, mas também amada” (II II 180,7).

Por isto também Sto. Tomás repete sempre de novo: “A vida dos religiosos visa precipuamente a contemplação”. “Os religiosos são destinados precipuamente para dedicar-se à contemplação (Contra impedientes c. 11. c. 2).

A finalidade da nossa existência terrestre é amar a Deus. É o grande mandamento. É a finalidade da Igreja, do Corpo Místico: conduzir toda a criatura ao Pai, unir todos
com a Santíssima Trindade; união é amor.

Propriamente, só os contemplativos são perfeitamente lógicos em sua fé.

O mundo taxa-os de egoístas, de inúteis Mas a
perspectiva profunda, não a míope, dá a eles toda razão.

Lemos, no sermão da montanha, a palavra de ordem de Cristo: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus” (Mt 6,33). Palavras de Cristo são lei.

O Concílio manifesta sua preocupação, lembrando aos apóstolos-missionários, leigos ou religiosos, que todo o valor de sua atividade depende da sua união com Cristo, isto é, do seu amor a Deus.

“Sua ação apostólica procede da sua união íntima com Ele” (PC 8). É evidente que
a fecundidade do apostolado leigo depende da sua união vital com Cristo” (AA 4).

PC 7 dedica todo um parágrafo à vida contemplativa:
“A vida contemplativa conserva seu lugar de destaque e de preferência, apesar das urgências do apostolado externo. Pois eles oferecem a Deus um exímio sacrifício de louvor: honram o povo de Deus com os mais ricos frutos
de santidade, movem-no pelo exemplo; fazem-no crescer por uma fecundidade apostólica secreta” .

O Concílio quer mosteiros de vida contemplativa nas missões “pois a vida contemplativa pertence à plenitude
da presença da Igreja” (AG 18). Sua tarefa, (PC 7): “Na solidão e no silêncio, em prece assídua, e em penitência alegre, vivam só para Deus”.

 Teologia das Realidades Celestes

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