Solidão

Não é fuga do mundo, desprezo do mundo, mas a procura de um ambiente mais favorável à prece. Todos os três votos evangélicos, pobreza, castidade, obediência, podia o monge do Egito praticá-Ios na metrópole de Alexandria.

Mas o silêncio das noites estreladas do deserto
dispunha mais ao canto dos Salmos.
Escreve o escolástico: “Solidão e pobreza não são essência da perfeição, mas meios da perfeição, como o jejum o é, etc. (II II 188,8).

Beneditinos e cistercienses transformaram inúmeros quilômetros quadrados de brejo
ou de areia em lavoura fértil. Só os mendicantes, por causa do apostolado da pregação, fixaram-se nas cidades.

Prece

A vida contemplativa é “uma oferta exímia de louvor”.
Jesus Cristo encarnou-se a fim de cantar o hino perpétuo de louvor. A Igreja está encarregada de continuar este múnus sacerdotal (SC 83).

Penitência

Sem penitência, sem mortificação do homem interior, ficamos opacos à luz divina e ao calor do amor. A penitência torna-nos transparentes.

“Por isso encontramse tão poucos contemplativos, porque tão poucos sabem
desapegar-se das criaturas mortais” (Imitação 3,31).

E penitência para remir o mundo. É por isso que eles dormem no duro, levantam-se à meia-noite, jejuam o ano todo – holocaustos vivos perante Deus – benditos sejam por terem assumido esse papel, para o qual nós seríamos
covardes demais

Valor apostólico

O Concílio não se cansa de apontar essa misteriosa fecundidade no reino das almas que a vida puramente contemplativa produz (PC 7; AA 4).

“Institutos de vida contemplativa são de máxima importância na conversão
das almas” (AG 40). São pára-raios, são canais da graça.

“As mãos levantadas derrotam mais batalhões que aquelas que se batem” (Bossuet).

O coração da Igreja

Paulo VI: “Ilhas de escondimento, de penitência, de meditação, as comunidades contemplativas constituem o coração da Igreja” (2-2-1966).

O que é que a Igreja necessita?
Necessita de quem pregue. Necessita de quem
esteja suspenso sobre o monte. Necessita também, hoje, de vida contemplativa, de almas que se deixem absorver pela intimidade com Deus (27-2-1966).

“O que pretende a Igreja fazer no mundo senão unir as almas com Deus, senão criar em cada alma a atitude de escutar a Palavra de Deus? (28-10-1966).

“O contemplativo não vai à oração tão tranqüilamente como se fosse a uma ligeira prosa com amigos. Ele deve carregar no coração a paixão pelo mundo” (28.10.1966).

Sta. Margarida de Cortona dedicava-se aos doentes. Fundou um hospital e fundou a primeira congregação de religiosas de vida ativa, que durou até o tempo de Napoleão.

Mas, por ordem de Deus, passou os últimos nove anos como reclusa, em oração e penitência, numa cela ao lado de uma Igreja. É a alavanca de Arquimedes no reino
espiritual. É esta alavanca da oração que escreve a história real da humanidade. O resto é só teatro de bonecos.

Vida apostólica

A messe é grande e surge a angustiosa pergunta: será que o bem comum da Igreja hoje em dia não exige que se dê preferência à atividade apostólica sobre  vida contemplativa?

O Concilio diz que não. “Os institutos, integralmente ordenados à contemplação… por mais urgentes que seja o apostolado ativo sempre conservam sua posição de destaque no Corpo Místico” (PC 7).

Vida monástica e atividade apostólica são separáveis.
E estiveram separadas de fato, desde a era dos
eremitas do Egito até o tempo dos mendicantes. Aliás, forçosamente, porque a maioria dos monges não eram sacerdotes.
Foi o clero secular que primeiro se fez monge.

Agostinho e Eusébio de Vercelli fundam o primeiro mosteiro de clérigos. Crodegang de Metz escreve a primeira regra canônica-monástica, prescrita depois pelo Concilio de Aquisgrana, 817, para todo o império carolíngio. Temos a repetida reforma de Gregório VII: vida em comunidade e comunhão de bens.

Surgem, no século XII, os premonstratenses e os cônegos agostinianos. E ainda no século XII, os teatinos. No século XIII, as primeiras ordens religiosas dedicadas ao apostolado (sacerdotal): os mendicantes.

Não fique esquecido o apostolado missionário dos monges de São Crisóstomo, de Cirilo e Metódio, dos monges nestorianos (China). E dos monges-missionários irlandeses e ingleses.

A Igreja é essencialmente apostólica; sua missão é anunciar o Reino de Deus (LG 5).

Apostolado é dever de todos os batizados (AA 2, LG 33).

“É preciso abater definitivamente
essa mentalidade, ainda sobrevivente e tenaz,
que enclausura religioso e freira no convento como se não houvesse outra coisa a fazer”.

O Vaticano II não dá apoio a esse iconoclasta de vida contemplativa. A solução do dilema contemplação – apostolado já foi dada por Sto.
Tomás.

A solução teórica. A solução prática é sempre um problema aberto. “Como é mais perfeito iIuminar do que somente luzir, assim é mais perfeito transmitir aos outros o fruto da contemplação, do que somente, ou apenas contemplar; razão porque ocupam o sumo grau as religiões ordenadas ao ensino (da teologia) e à pregação.

No segundo grau estão as religiões ordenadas à contemplação. E no terceiro, as que se ocupam de obras externas” (II II 188,6). “Se os religiosos dedicam-se a obras da vida ativa
com o pensamento em Deus, segue que neles a ação deriva da contemplação divina” (II II 188,2).

Vida apostólica, como forma de vida monástica mais elevada, exige duas condições:
– “Quem é chamado da vida contemplativa para a vida ativa, não faça isso por subtração, mas por adição”(II II 182,1).

Sto. Tomás recorda que não podemos fazer
tudo. Podemos e devemos rezar por todos em geral.

Quanto a obras de caridade, não damos conta de atender a todas as necessidades em razão dos limites humanos” (II II 31,2).
– “Que sejam obras de apostolado espiritual: anúncio da Palavra. As obras de caridade corporal (cuidar de doentes, órfãos, velhos) ou de caridade intelectual (escolas-orfanatos) não gozam desse privilégio.

A vida contemplativa é simplesmente superior. Só o apostolado da Palavra pode realizar o contemplata tradere. Só a esse cabe a superioridade da vida monástico-apostólica.

Adição, não subtração. A ação apostólica não deve interromper a vida contemplativa. Mas esta deve continuar durante a ação. Mais uma vez: identificamos contemplação com amor de Deus. Adição e não subtração.

Estamos cientes, pregadores e teólogos, que gastamos longas horas e dias em estudos intelectuais que absorvem toda a atenção e que suspendem os atos de amor divino.

Por isso a solução de Sto. Inácio de Loiola: “in actione contemplativus” (Nadal).

Durante a ação externa e apostólica,continue a contemplação, a união afetiva com Deus. Atividade e vida religiosa não se devem justapor, mas compenetrar (Gambari). E ai está o x. Como fazer?

“À renovação espiritual se deve dar sempre a primazia, mesmo que se trate de promover obras externas” (PC 2).

“Toda a ação apostólica deve ser informada de Espírito religioso” (PC 8).

A fim de garantir esse processo, é mister manter firme a parte contemplativa da se vida. Porcentagem difícil de especificar, e variável de indivíduo para indivíduo. É em geral reduzida a um mínimo necessário, por exemplo,a meia hora de meditação; totalmente insuficiente se não houver paralelamente um ambiente favorável e um esforço por andar na presença de Deus.

Portanto, nunca se dispensem atos de oração para sobrar mais tempo para o apostolado. Tanto mais que convém não esquecer que nossa ação apostólica, na conversão do pecador, é só de serventes… Talvez não dê muito entusiasmo desempenhar papel tão secundário.

Mas é a realidade no Corpo místico.

Conclusão

– Vida ativa e vida apostólica dispersam a concentração em Deus. E, por conseguinte, arriscamos não agir por amor de Deus. Mesmo as atividades apostólicas são ambíguas; pois podem ser bem feitas, mas não por amor
de Deus. Devem ser praticadas com o intuito de viver em Deus (II II 188,2).

– Observe-se a ordo caritatis. “É da ordem natural que alguém primeiro se santifique e depois comunique a alguém sua perfeição” (II Sententiarum 32,1,1).

– “O zelo pelas almas é um sacrifício agradabilíssimo a Deus, contanto que se faça de maneira correta: cuidar primeiro da própria salvação e depois da dos outros.

Está escrito: “Que adianta o homem ganhar o mundo inteiro…” (Quodl. 3,17).

– Acrescente-se que a vida ativa e a vida apostólica são tantas vezes preferidas por razões errôneas. Já Sto. Tomás adverte sobre essas ilusões psicológicas, “quando
é mais o tédio da vida contemplativa que conduz à ação externa” (Perfectio c.23).

– “E próprio da caridade perfeita renunciar, por amor a Deus, à doçura da vida contemplativa sempre preferida, para atender a atividade pela salvação do próximo” (QuodI. 1,14).

– “A ação de Cristo é nossa instrução” (I II 40,1). Cristo rezava noites inteiras sem ter necessidade disso, pois tinha a visão beatifica (PC 6).

– As angústias das necessidades materiais e espirituais, tão prementes, não nos deve afogar na dissipação da atividade externa. Somos limitados no espaço e no tempo.

Se percebemos que o trabalho apostólico nos esvazia, afrouxa nossa união solicita com Deus, então, sem dó nem piedade, devemos por de lado a solicitude de todas as Igrejas” (2Cor 11,28), e recolher-nos com o Mestre: “Venite seorsum”, “vinde a um lugar solitário e descansai”
(Mt 10,23).

Quanto menos rezarmos, para trabalhar
mais, tanto mais seremos insuficientes para vencer o trabalho.

– Finalmente, convençam-se todos os apóstolos da seara, prezados irmãos, que a prece humilde e amorosa produz mais conversões do que nossa ação. Estejamos convencidos que o sofrer dos filhos de Deus fecunda melhor
a seara do que a ação.

As melhores armas do apostolado são a prece amorosa e o sofrimento. Foi o método
do Filho de Deus na terra.

Leclercq conta de um monge eremita, que colocara sobre o altar um pequeno globo do mundo que ele girava cada dia um pouco… “In actione contemplativus”. “Contemplativo
na ação”.

Teologia das Realidades Celestes (FIM)

Obrigada, Pe. João Beting, aí no céu interceda por mim e por todas as pessoas que gostaram de suas maravilhosas aulas. Obrigada aos Sacerdotes Redentoristas.

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