INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

CAPÍTULO VI

DOS AFETOS E PROPÓSITOS, TERCEIRA PARTE DA MEDITAÇÃO

A meditação produz bons movimentos na vontade ou parte afetiva de nossa alma, como o amor de Deus e pelo próximo, desejo do paraíso e da glória, zelo pela salvação das almas, imitação da vida de Nosso Senhor, compaixão, admiração, gozo, temor de não ser grato a Deus, do juízo, do inferno, ódio ao pecado, confiança na bondade e misericórdia de Deus, contrição por nossa má vida passada: e nestos afetos, nosso espírito se há de expandir e estender, na medida do possível.

E, se, nisto, queres ser ajudada, toma o primeiro volume das Meditações de Dom Andrés Capilia, e leia o prefácio, onde ensina a maneira de desapegar dos afetos. O mesmo encontrarás mais extensamente explicado, no Tratado da Oração do Padre Arias.

Não obstante, Filotéia, não te hás de deter tanto nestes afetos gerais, que não os convertas em resoluções especiais e particulares, para corrigir-te e emendar-te. Por exemplo, a primeira palavra que Nosso Senhor disse na cruz produzirá seguramente em tua alma um bom desejo de imitar-lhe, ou de perdoar os inimigos e de amar-lhes.

Pois bem, te digo que isto é muito pouca coisa, se não acrescentas um propósito especial desta maneira: de agora em diante não ficarei com raiva pelas palavras injuriosas que aquele ou aquela, o vizinho ou a vizinha, meu criado ou a criada, dizem contra mim, nem tampouco por tais ou quais desprezos, de que me fizeram objeto este ou aquele; ao contrário, direi tal ou qual coisa, para ganhá-los ou suavizá-los, e assim dos demais afetos. Por este meio, Filotéia, corrigirás tuas faltas em pouco tempo,enquanto que, com os afetos, o conseguirias tarde e com dificuldade.