Archive for fevereiro, 2013


CAPÍTULO XV

DE OUTROS EXERCÍCIOS PÚBLICOS E EM COMUM

Além disso, Filoteia, nos domingos e dias de festa, assistirás o Ofício das Horas e das Vésperas, pode ser melhor; porque estes dias são dedicados a Deus, e hão de fazer-se mais atos em honra e glória sua, que nos demais dias.

Se assim o fizeres, sentirás mil doçuras de devoção, como ocorria a Santo Agostinho, que afirmou em suas confissões que, ao ouvir os divinos ofícios, no começo de sua conversão, derretia seu coração de suavidade e se enchiam seus olhos de lágrimas de piedade.

Fora isso (para dizer de uma vez por todas) que sente mais consolo nos exercícios públicos da Igreja, que nos atos particulares, pois Deus dispôs que a comunidade seja preferível à qualquer singularidade.

Entra de bom grado nas confrarias do lugar onde resides, especialmente naquelas cujos exercícios produzem mais fruto de edificação; porque, nisto, praticarás uma espécie de obediência muito agradável a Deus, pois se bem que não é obrigado o ingresso nas confrarias, não obstante é muito recomendado pela Igreja, a qual, para demonstrar que é seu desejo que muitos se alistem nelas, concede indulgências e outros privilégios aos confrades.

Também, sempre é coisa muito caritativa concorrer e cooperar com os bons intentos de outros. E, mesmo que possa se dar o caso de que alguém faça, em particular, os mesmos atos de piedade que, nas confrarias, se fazem em comum, e mesmo encontrando mais gosto em fazê-los privadamente, Deus, contudo, é mais glorificado na união de nossas boas obras com as de nossos irmãos.

O mesmo digo de toda tipo de preces e devoções públicas, as quais, na medida do possível, temos de contribuir com nosso bom exemplo, para a edificação do próximo, e nosso zelo pela glória de Deus e pelas intenções da comunidade.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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CAPÍTULO XIV

A SANTA MISSA E COMO SE HÁ DE PARTICIPAR

1. Ainda não te falei do sol das práticas espirituais, que é o santíssimo, sagrado e muito excelso sacrifício e sacramento da Missa, centro da religião cristã, coração da devoção, alma da piedade, mistério inefável, que compreende o abismo da caridade divina, e pelo qual Deus, unindo-se realmente a nós, nos comunica magnificamente suas graças e favores.

2. A oração, feita em união deste divino sacrifício, tem uma força indizível, de sorte, Filoteia, que, por ela, a alma abunda em celestiais favores, porque se apoia em seu Amado, o qual a enche tanto de perfumes e suavidades espirituais, que a faz semelhante a uma coluna de fumo de lenha aromática, de mirra, de incenso e de todas as essências olorosas, como se disse no Cântico dos Cânticos.

3. Faz, pois, todos os esforços possíveis, para assistir todos os dias a santa Missa, com o fim de oferecer.. com o sacerdote, o sacrifício de teu Redentor a Deus, seu Pai, por ti e por toda a Igreja. Os anjos, como disse São João Crisóstomo, sempre estão ali presentes, em grande número, para honrar este santo mistério; e nós, juntando-nos a eles e com a mesma intenção, forçosamente temos de receber muitas influências favoráveis desta companhia.

Os coros da Igreja militante, se unem e se juntam com Nosso Senhor, neste divino ato, para cativar n’Ele, com Ele e por Ele, o coração de Deus Pai, e para fazer inteiramente nossa sua misericórdia. Que sorte para a alma aportar devotamente seus afetos em um bem tão precioso e desejável!

4. Se forçosamente obrigada, não podes assistir a celebração deste augusto sacrifício, com uma presença real, é preciso que, ao menos’ leves ali teu coração, para assistir de uma maneira espiritual. A qualquer hora da manhã vá à igreja em espírito, se não podes ir de outra maneira; une tua intenção à de todos os cristãos, e, no lugar onde te encontres, faz os mesmos atos interiores que farias, se estivesses realmente presente à celebração da santa Missa em alguma igreja.

5. Então, para ouvir, real ou mentalmente, a Santa Missa, do jeito que convém:

1.º Desde que chegas, até que o sacerdote tenha subido ao altar, faça a preparação juntamente com ele, a qual consiste em por-te na presença de Deus, em reconhecer tua indignidade e em pedir perdão por teus pecados,

2º Desde que o sacerdote sobe ao altar até o Evangelho, considera a vinda e a vida de Nosso Senhor neste mundo, com uma simples e geral consideração.

3º Desde o Evangelho até depois do Creio, considera a pregação de nosso Salvador, promete querer viver e morrer na fé e na obediência de sua santa palavra e na união da santa Igreja católica.

4º Desde o Creio até o Pai Nosso, aplica teu coração aos mistérios da morte e paixão de nosso Redentor, que estão atual e essencialmente representados neste sacrifício, o qual, juntamente com o sacerdote e o povo, oferecerás a Deus Pai, por sua honra e por tua salvação.

5º Desde o Pai Nosso até a comunhão, esforça-te em fazer brotar de teu coração mil desejos, anelando ardentemente por estar para sempre abraçada e unida a nosso Salvador com um amor eterno.

6º Desde a comunhão até o fim, dê graças à sua divina Majestade por sua paixão e pelo amor que te manifesta neste santo sacrifício, conjurando-lhe por este, que sempre te seja propício, o mesmo a ti que a teus pais, a teus amigos e a toda a Igreja, e, humilhando-te com todo teu coração recebe devotamente a bênção divina que Nosso Senhor te dá por meio do celebrante.

Mas, se, durante a Missa, queres meditar os mistérios que tenhas escolhido para considerar cada dia, não será necessário que te distraias em fazer atos particulares, mas que bastará que, no começo, dirijas tua intenção para querer adorar a Deus e oferecer-lhe este sacrifício pelo exercício de tua meditação ou oração, pois em toda meditação se encontram estes mesmos atos ou expressa, ou tácita ou virtualmente.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

CAPÍTULO XIII

DAS ASPIRAÇÕES, ORAÇÕES, JACULATÓRIAS E BONS PENSAMENTOS

Nós fazemos um retiro com Deus porque aspiramos a Ele, e aspiramos a Ele para retirar-nos n’Ele, de maneira que a aspiração a Deus e o retiro espiritual são duas coisas que se completam mutuamente e ambas procedem e nascem dos bons pensamentos.

Levanta, pois, com frequência o coração a Deus, Filoteia, com breves mas ardentes suspiros de tua alma. Admira sua beleza, invoca seu auxílio, lança-te, no espírito, aos pés da cruz, adora sua bondade, pergunta-lhe, com frequência, sobre tua salvação, oferece, mil vezes ao dia, tua alma, fixa teus olhos interiores em sua doçura, estende-lhe a mão, como uma criança pequena ao seu pai, para que te conduza, põe-te sobre teu coração, como um ramo delicioso, plante-o em tua alma, como uma bandeira, e move de mil diversas maneiras teu coração, para entrar no amor de Deus e suscitar em ti uma apaixonada e terna estima a este divino esposo.

Assim se fazem as orações jaculatórias, que o grande Santo Agostinho, aconselha com tanta insistência à devota dama Honra. Filoteia, nosso espírito, se entregando ao trato, à intimidade e à familiaridade com Deus, ficará todo ele perfumado com suas perfeições; e, certamente, este exercício não é difícil, porque pode se entrelaçar com todos os afazeres e ocupações, sem estorvá-las de maneira alguma,   ou em retiro espiritual, ou nestas aspirações interiores, não se fazem mais que pequenas e breves digressões, que, não impedem, mas ajudam muito conseguir o que pretendemos.

O caminhante que bebe um gole de vinho, para alegrar seu coração e refrescar sua boca, mesmo parando uns momentos, não interrompe a viajem, mas toma forças para chegar mais rápido e com mais alento, não detendo-se mais para andar melhor.

Muitos reúnem várias aspirações vocais, que, verdadeiramente, são muito úteis; mas, se queres crer-me, não te sujeites a nenhuma classe de palavras, mas pronuncia, com o coração ou com os lábios, as que o amor te dite, porque ele te inspirará todas quantas quiser.

É verdade que há certas palavras que, neste ponto, tem uma força especial para satisfazer o coração, tais são as aspirações tão abundantemente semeadas nos salmos de Davi, as diversas invocações do nome de Jesus e as expressões amorosas escritas no Cântico dos Cânticos. Os cânticos espirituais também servem para este fim, contanto que se cantem com atenção.

Finalmente, assim como os que estão enamorados com um amor puramente humano e natural, têm sempre fixos seus pensamentos no ser querido, seu coração cheio de afetos para com ele, sua boca cheia de seus louvores e, durante sua ausência, não perdem tempo manifestando seu amor por cartas, e não encontram árvore em cuja casca não gravem o nome do ser amado; da mesma maneira, os que amam a Deus não podem deixar de pensar n’Ele, suspirar por Ele, aspirar a Ele, falar d’Ele, e queriam, se fosse possível, imprimir sobre o peito de todas as pessoas do mundo o santo e sagrado nome de Jesus.

E a estes lhes convidam para todas as coisas, e não há criatura que não lhes anuncie os louvores de seu amado, e, como disse Santo Agostinho, tirando-o de Santo Antônio, tudo quanto faz no mundo lhes fala uma linguagem muda, mas muito inteligível, em louvores de seu amor; todas as coisas lhes inspiram bons pensamentos, dos quais nascem, depois, muitos movimentos e aspirações para Deus. Eis aqui alguns exemplos.

São Gregório, bispo de Nazianzo, segundo referia ele mesmo aos fiéis, enquanto passeava pela praia olhava como as ondas se estendiam sobre a areia e como deixavam conchas e caracóis marinhos, ervas pequenas, ostras e outras miudezas parecidas, que o mar lança, ou, melhor dizendo, cuspia para fora; depois, outras ondas voltavam a engolir e a colher de novo uma parte daquilo, enquanto aquelas rochas no entorno se mantém firmes e imóveis, por mais que as águas fortemente as açoitem.

Pois bem, sobre isto teve este belo pensamento, a saber, que os fracos, imitando as conchas, os caracóis e as ervas, ora se deixam levar pela aflição, ora pela consolação, feitos joguetes das ondas e do vaivém da sorte, enquanto que as almas fortes permanecem firmes e imóveis a toda classe de ventos, e estes pensamentos lhe fizeram repetir estas aspirações de Davi: « Oh Senhor, salva-me, porque as águas entraram até minha alma! Oh Senhor, livra-me do abismo das águas! Afundei-me até o mais profundo do mar e a tempestade me submergiu».

E é porque estava aflito pela injusta usurpação que Máximo havia tentado do seu bispado.
São Fulgêncio bispo de Ruspa, encontrando-se em uma assembléia geral da nobreza romana, que Teodorico, rei dos godos, discursava, ao ver o esplendor de tantos magnatas, cada um dos quais assistia segundo sua categoria, exclamou: « Oh Deus, que bela deve ser a Jerusalém celeste, se cá embaixo parece tão brilhante a Roma terrena! E, se, neste mundo, andam em meio de tantos esplendores os amantes da vaidade, que glória deve estar reservada, no outro mundo, os contempladores da verdade!».

Diz-se que Santo Anselmo, arcebispo de Canterbury, cujo nascimento tem honrado de grande maneira as nossas montanhas, era admirável nesta prática dos bons pensamentos. Uma lebre acossada pelos cães correu para se refugiar embaixo do cavalo deste santo prelado, que então ia de viajem, como a um refúgio que lhe sugeriu o iminente perigo de morte; e os cães, ladrando ao redor, não se atreviam a violar a imunidade do lugar, onde sua presa se havia refugiado; espetáculo verdadeiramente extraordinário, que causava riso a toda a comitiva, enquanto o grande Anselmo, chorando e gemendo, dizia: « Ah!, vós rides, mas o pobre animal não ri; os inimigos da alma, perseguida e extraviada pelos caminhos tortuosos de toda classe de vícios, a espreitavam na agonia da morte, para arrebatá-la e devorá-la, e ela, cheia de medo, busca por toda parte auxílio e refúgio, e, se não o encontra, seus inimigos caçoam e riem». E, dito isto, se afastou suspirando.

Constantino o Grande honrou a Santo Antônio, escrevendo, coisas que deixou admirados aos religiosos que estavam ao seu redor, aos quais disse: « Por que vos admirais de que um rei escreva a um homem? Admirai melhor que o Deus eterno tenha escrito sua lei aos mortais, e mais ainda que lhes tenha falado de tu a tu, na pessoa de seu Filho».

São Francisco ao ver a uma ovelha sozinha, em meio de um rebanho de cabras: «Olha -disse ao seu companheiro-, que mansa é esta ovelhinha entre todas as cabras: Também Nosso Senhor andava manso e humilde entre os fariseus». E, ao ver, em outra, ocasião, um cordeirinho devorado por um cervo: « Ah, cordeirinho-exclamou-, como me recordas ao vivo a morte de meu Salvador!»

Este grande personagem de nossos tempos, Francisco de Borja, quando ainda era duque de Gandia e ia de casa, se entretinha em mil devotos pensamentos: «Maravilhava-me -dizia depois o mesmo-, de como os falcões voltem à mão, se deixam tapar os olhos e atar ao poleiro, e os homens são tão rebeldes à voz de Deus».

O grande São Basílio disse que a rosa entre os espinhos sugere esta reflexão aos homens: «O mais agradável deste mundo, oh mortais!, anda mesclado de tristeza; nada há que seja inteiramente puro: a dor sempre acompanha a alegria, a viuvez ao matrimônio, o trabalho a fertilidade, a ignomínia a glória, a injuria às honras, o tédio as delícias e a enfermidade a a saúde. A rosa-disse este personagem-, é uma flor, mas me causa uma grande tristeza, porque me recorda o pecado, pelo qual a terra foi condenada a produzir espinhos».

Uma alma devota, ao ver um riachinho e ao contemplar nele o céu refletido com suas estrelas, em uma noite serena, dizia: « Oh, Deus meu!, estas mesmas estrelas estarão sob teus pés, quando me tenhas recebido em teus santos tabernáculos; e, assim como as estrelas se refletiam na terra, assim também os homens da terra estão refletidos no céu, na fonte viva da caridade divina».

Outro, ao ver a corrente de um rio, exclamava: «Minha alma jamais terá repouso até que tenha se absorvido no mar da Divindade, que é sua origem». E São Francisco, enquanto contemplava um belo riacho, em cuja margem tinha se ajoelhado, para orar, foi arrebatado em êxtase e repetia muitas vezes estas palavras: «A graça de meu Deus se desliza doce e suavemente como este pequeno riacho».

Outro, ao ver como floresciam as árvores, suspirava: « Por que eu sou o único que não floresço no jardim da Igreja?» Outro, ao ver os pintinhos abrigados debaixo de sua mãe: « Oh Senhor! -dizia-, guardai-nos debaixo da sombra de tuas asas». Outro, ao ver o girassol, perguntava. «Quando será, meu Deus, que minha alma seguirá os atrativos de tua bondade?» E, ao contemplar os pensamentos do jardim, formosos à vista, mas sem perfume, dizia: « Ah! assim são meus pensamentos, formosos na forma, mas sem fruto».

Eis aqui, minha Filoteia, como se tiram os bons pensamentos e as santas inspirações das coisas que se nos oferecem, em meio da variedade desta vida mortal. Desgraçados os que afastam as criaturas do Criador, para convertê-las em instrumento de pecado; bem aventurados os que se servem delas para a glória de seu Criador e fazem que sua vaidade redunde em honra da verdade. «Certamente -disse São Gregório Nazianzeno-, me acostumei consultar todas as coisas ao meu proveito espiritual». Leu o epitáfio que escreveu São Jerônimo sobre Santa Paula, porque é coisa bela ver como tudo está cheio de santas inspirações e pensamentos que ela fazia em todas as ocasiões.

Pois bem, neste exercício de retiro espiritual e das orações jaculatórias reside a grande obra da devoção. Este exercício pode suprir o defeito de todas as demais orações, mas sua falta não pode ser reparada por nenhum outro meio. Sem ele, não se pode praticar bem a vida contemplativa, nem tampouco, qual convém, a vida ativa; sem Ele, o descanso é ociosidade, e o trabalho, estorvo. Por esta causa te recomendo muito encarecidamente que o abraces com todo o coração, sem separar-te jamais d’Ele.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA -São Francisco de Sales

CAPÍTULO XII

O RETIRO ESPIRITUAL

Neste ponto, amada Filoteia, é onde desejo que sigas meu conselho; porque é aqui onde se encontra um dos recursos mais seguros para teu aproveitamento espiritual.

Põe, quantas vezes puder, durante o dia, teu espírito na presença de Deus, em alguma das quatro maneiras acima indicadas; considera o que faz Deus e o que fazes tu, e verás como seus olhos te olham e estão perpetuamente fixos em ti, com um amor incomparável.

Oh Deus!, dirás, por que não te olho sempre como Tu olhas para mim? Por que pensas em mim com tanta frequência, e eu penso tão pouco em Ti? Onde estamos, alma minha? Nossa verdadeira morada é Deus, e onde nos encontramos?

Assim como os pássaros têm seus ninhos nas árvores, para se retirar quando têm necessidade, e os cervos seus esconderijos e suas defesas, onde se ocultam e se amparam e onde tomam o frescor da sombra no verão, da mesma maneira, Filoteia, nossos corações hão de escolher, cada dia, algum lugar, em cima do Calvário, nas chagas de Nosso Senhor ou em qualquer outro lugar próximo a Ele, onde guarnece-nos em toda espécie de ocasiões, onde refaz-nos e recria-nos em meio das ocupações exteriores, e para estar ali, como em uma fortaleza, para defender-nos contra as tentações.

Bem aventurada a alma que poderá dizer com verdade ao Senhor: «Tu és minha casa de refúgio, minha firme defesa, meu teto contra a chuva, minha sombra contra o calor».

Acorda, pois, Filoteia, para fazer sempre muitos retiros na solidão de teu coração, enquanto corporalmente te encontras em meio a conversas e afazeres, e esta solidão mental não pode ser, de maneira alguma, impedida pela multidão dos que nos rodeiam, porque eles não estão ao redor de teu coração, mas ao redor de teu corpo, de tal maneira que teu coração permanece só na presença de Deus.

É o exercício que praticava Davi, no meio de suas muitas ocupações, segundo o afirma em muitas passagens de seus salmos, como quando disse: « Oh Senhor!, eu sempre estou contigo. Vejo sempre meu Deus diante de mim. Levanto meus olhos a Ti, oh Deus meu!, que habitas nos céus. Meus olhos sempre estão postos em Deus».

Além disso, as conversas não são ordinariamente tão importantes, que não seja possível, de quando em quando, apartar de elas o coração, para pô-lo nesta divina solidão.

A Santa Catarina de Sena, a quem sua mãe e seu pai tinham privado de toda comodidade e ocasião para poder orar e meditar, inspirando-lhe Nosso Senhor que fizesse um pequeno oratório em seu espírito, o qual pudesse se retirar mentalmente, para se entregar a esta santa solidão espiritual, em meio das ocupações exteriores.

E, desde então, quando o mundo a acometia, não recebia dele nenhum mal estar, porque, como ela mesma dizia, se encerrava em sua cela interior, onde se consolava com seu esposo.

Assim, aconselhava seus filhos espirituais que edificassem uma cela em seu coração e que se retirassem para ela.

Encerre, pois, algumas vezes teu espírito em teu coração, onde, separada de todos, possa tua alma se comunicar intimamente com Deus, para dizer como Davi: «Eu estive velando e me fiz semelhante ao pelicano do deserto. Estou como o mocho ou a coruja nas fendas da parede ou como a ave solitária no telhado».

Estas palavras, à parte de seu sentido literal (que demonstra como este grande rei se tomava algumas horas para viver na solidão e se entregava à contemplação das coisas espirituais), nos mostram, em seu sentido místico, três excelentes lugares de retiro e como três ermidas, onde podemos exercitar nossa solidão, à imitação de nosso Salvador, que, em cima do Calvário, foi como o pelicano da solidão, que com seu sangue dá vida aos seus filhotes mortos; em seu Nascimento em um estábulo abandonado, foi como o mocho nas fendas da parede, lamentando e doendo-se por nossas culpas e pecados, e, no dia da Ascensão, foi como a ave solitária que se retira e voa para o céu que é como o teto do mundo.

O bem aventurado Elzeário, conde de Ariã, em Provença, havendo estado muito tempo ausente de sua devota e casta Delfina, recebeu dela um recado, que foi o de se inteirar de sua saúde, ao qual respondeu: «Encontro-me muito bem, amada esposa; se quiser me ver, busca-me na chaga do costado de nosso doce Jesus, pois é ali onde eu habito e ali me encontrarás; em vão me buscarás em outra parte».

Eis aqui um cavaleiro cristão de verdade!

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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