Archive for abril, 2013


TERCEIRA PARTE DA INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA

Muitos avisos sobre o exercício das virtudes

CAPÍTULO I

DA ESCOLHA QUE CONVÉM FAZER QUANTO AO EXERCÍCIO DAS VIRTUDES

O rei das abelhas nunca penetra nos campos se não vai rodeado de seu pequeno povo, e a caridade nunca entra em um coração se não leva consigo todo o séquito das demais virtudes, as quais exercita e faz trabalhar, como um capitão a seus soldados; mas não as põe em ação nem subitamente, nem da mesma maneira, nem sempre, nem em todas as partes.
Justamente é «como a árvore plantada junto a corrente das águas’ que leva seu fruto a seu tempo», porque a caridade, ao roçar uma alma, produz nela as obras de virtude, e cada uma a seu devido tempo.
«A música -diz o Provérbio-, é inoportuna em um duelo». Muitos padecem de um defeito, a saber, que quando empreendem a prática de uma virtude particular, se obstinam em ter atos da mesma em todo tipo de ocasiões, e, como aqueles antigos filósofos, querem ou sempre rir ou sempre chorar; e ainda se conduzem pior quando censuram ou criticam os que não praticam sempre aquelas mesmas virtudes tal como eles o fazem. «É preciso se alegrar com os que estão alegres e chorar com os que choram», disse o Apóstolo, e «a caridade é paciente, benigna», generosa, prudente, condescendente.

Há, não obstante, algumas virtudes que têm um alcance quase universal, que não hão de fazer seus atos isoladamente, mas que hão de derramar suas qualidades sobre os atos das demais virtudes. Não são muito frequentes as ocasiões de praticar a fortaleza, a magnanimidade, a magnificência; mas a doçura, a temperança, a honestidade e a humildade são umas virtudes que hão de informar todas as ações de nossa vida. Há virtudes mais excelentes que estas: o uso, portanto, destas é mais necessário.
O açúcar é mais excelente que o sal; mas o uso do sal é mais frequente e mais geral. Por esta causa, é conveniente ter sempre disponível uma boa provisão dessas virtudes gerais, pois é preciso servir-se delas quase continuamente.

Entre os exercícios das virtudes, temos de escolher o que melhor enquadre com nossa obrigação, e não o que é mais conforme nosso gosto. Santa Paula sentia muito prazer nas asperezas das mortificações corporais, para gozar mais facilmente das doçuras espirituais, mas maior era o dever da obediência a seus superiores, pelo qual reconhece São Jerônimo que era merecedora de repreensão, porque, contra o parecer de seu bispo, fazia abstinências imoderadas.

Pelo contrário, os apóstolos, encarregados de pregar o Evangelho por todo o mundo e de distribuir o pão do céu às almas, creram, muito acertadamente, que teriam trabalhado mal se se tivessem distraído deste santo exercício para praticar a virtude de socorrer os pobres, ainda que esta virtude seja excelente.

Cada vocação tem necessidade de praticar alguma especial virtude: umas são as virtudes do prelado, outras as do príncipe, outras as do soldado, outras as de uma mulher casada, outras as de uma viúva; e, mesmo que todos tenham todas as virtudes, nem todos, portanto, as praticarão igualmente, mas cada um há de exercitar-se, particularmente, naquelas que exige o gênero de vida a que foi chamado.

Entre as virtudes que não afetam nossos deveres particulares, temos que preferir as mais excelentes às mais vistosas. Os cometas nos parecem, normalmente, maiores que as estrelas, e, aparentemente, o são; não obstante, nem em grandeza nem em qualidade podem comparar-se com elas; nos parecem maiores unicamente porque estão mais próximo de nós, e em um meio mais denso, comparado com o das estrelas.

Da mesma maneira, existem certas virtudes que, por estarem mais próximas de nós, porque são simples, e por dizê-lo assim, materiais, são muito apreciadas e sempre preferidas pela população, que tem em mais conta a esmola material que a espiritual, o cilício, o jejum, o despojamento, a disciplina e as mortificações do corpo, que a doçura, a benignidade, o aborrecimento e outras mortificações do coração, que, não obstante, são muito melhores. Escolhe, pois, Filoteia, as virtudes melhores e não as mais apreciadas; as mais excelentes e não as mais vistosas, as melhores e não as que mais aparecem.

É muito útil que cada um escolha um exercício particular de alguma virtude, não para esquecer as demais, mas para ter o espírito mais ajustado, ordenado e ocupado.

Uma formosa donzela, mais resplandecente que o sol, regiamente adornada, embelezada e coroada de oliveira, apareceu a São João, bispo de Alexandria, e lhe disse: «Eu sou a filha do grande rei; se você quiser pode me ter por amiga, te conduzirei em sua presença».
Entendeu o santo que era a misericórdia com os pobres o que Deus lhe recomendava, e, daí em diante, se consagrou totalmente ao exercício desta virtude, e em toda parte, o chamavam São João o Esmoleiro.

Eulógio Alexandrino, desejando fazer algum particular serviço a Deus, e não sentindo-se bastante forte nem para enfrentar a vida solitária, nem para se por sob a obediência de outro, acolheu em sua casa um pobre todo cheio de lepra e desfeito, para exercitar a caridade e a mortificação, e para praticar mais dignamente, fez voto de honrar, tratar e servir o pobre como um criado ao seu amo e senhor. Tentados o leproso e Eulógio de se separarem um do outro, consultaram o grande Santo Antônio, que lhes disse: «Guardai-vos, meus filhos, de separar-vos, porque estando ambos muito próximo do fim, se o anjo não vos encontrar juntos, correreis grande perigo de perder vossas coroas».

O rei São Luís visitava, por voto, os hospitais, e servia os enfermos com suas próprias mãos. São Francisco amava, sobretudo, a pobreza, que chamava sua dama; Santo Domingo se entregou à pregação, a qual tomou o nome de sua Ordem. São Gregório o Grande gostava de tratar com delicadeza os peregrinos, a exemplo do grande Abralian, e, como este hospedou ao Rei da glória, sob a forma de um peregrino. Tobias praticava a caridade enterrando os defuntos; santa Isabel, apesar de ser tão grande princesa, amava muito a própria degradação; Santa Catarina de Gênova tendo ficado viúva, se consagrou ao serviço de hospital.

Conta Cassiano que uma devota donzela, que desejava ser exercitada na virtude da paciência, foi a Santo Atanásio, o qual, para comprazê-la, lhe enviou uma pobre viúva mal humorada, irascível, queixosa e insuportável, a qual, xingando sempre esta devota jovem, lhe deu ocasião de praticar dignamente a doçura e a condescendência.

Assim, entre os servos de Deus, uns se consagram ao serviço dos enfermos, outros para socorrer os pobres, outros para ensinar a doutrina cristã às crianças, outros a guiar as almas perdidas e extraviadas, outros para cuidar das igrejas e para adornar os altares, e outros para fomentar a concórdia e a paz entre os homens. Imitam, nisto, as bordadeiras, as quais, sobre diversos fundos, combinam, com formosa variedade, as sedas, o ouro e a prata para fazer todo tipo de flores; assim, estas almas piedosas que empreendem algum exercício particular de devoção, se servem dele, como um fundo, para seu bordado espiritual, sobre o qual praticam a variedade de todas as demais virtudes, e têm, desta maneira, suas ações e afetos muito unidos e ordenados, porque os relacionam com seu exercício principal, e assim fazem que seja mais formosa sua alma, com seu vistoso tecido de ouro ataviado, e com todas as filigranas bem bordada.

Quando precisamos combater algum vício, na medida do possível, é necessário empreender a prática da virtude contrária, fazendo que todas as demais cooperem, pois assim venceremos a nosso inimigo e não deixaremos de avançar em todas as virtudes.

Se me sinto dominado pelo orgulho ou pela ira, será necessário que, em todas as coisas, me incline e me curve do lado da humildade e da mansidão, e que, para este fim, endireite os demais exercícios da oração, dos sacramentos, da prudência, da constância, da sobriedade.

Porque assim como os javalis para afiar suas defesas, esfregam e usam os dentes, os quais, por sua vez, ficam muito finos e cortantes, assim o homem virtuoso, depois de ter cometido a empresa de aperfeiçoar-se na virtude que lhe é mais necessária para sua defesa, há de polir e limar com o exercício das demais virtudes, as quais, por sua vez afiam aquela, fazem elas mesmas bem melhores e perfeitas, como ocorreu a Jó, que, ao praticar, de um modo especial, a paciência, contra as tentações que lhe acometeram, se fez santo e virtuoso em toda sorte de virtudes.

E ainda ocorreu que, como disse São Gregório Nazianzeno, por um só ato de virtude, praticado com perfeição, uma pessoa chega ao cume da santidade, e põe como exemplo Raab, o qual, por ter praticado de uma maneira perfeita a hospitalidade, chegou a uma glória suprema; mas isto se entende quando o ato se faz de uma maneira excelente, com grande fervor e caridade.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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CAPÍTULO XXI

COMO SE HÁ DE COMUNGAR

Na noite anterior, comece a se preparar para a Sagrada Comunhão, com muitas aspirações e desejos amorosos, e acorde na hora conveniente, para que possa levantar cedo.

E, se, durante a noite despertar, encha em seguida seu coração ou sua boca de palavras perfumadas, com as quais seja sua alma perfumada para receber o Esposo, o qual, vela, enquanto você dorme, e se prepara para te trazer mil graças e favores, se você, por tu parte, está com disposição de recebê-lo.

Pela manhã, levante com grande alegria, pela bem aventurança que espera, e uma vez confessada, vem com grande confiança, mas também com grande humildade, para receber este pão celestial, que te alimenta para a imortalidade.

E, depois que tiver dito estas palavras: «Senhor, eu não sou digna», não mexa mais a cabeça nem os lábios, nem para rezar nem para suspirar, mas, abrindo com suavidade a boca e levantando o necessário a cabeça, para que o sacerdote possa ver o que faz, recebe, cheia de fé, de esperança e de caridade, Àquele, no qual, pelo qual e para o qual, crê, espera e ama.

Oh, Filoteia! imagine que, assim como a abelha, depois de ter chupado das flores o orvalho do céu e o néctar mais requintado da terra, e, depois de tê-lo convertido em mel, o leva ao favo de mel, da mesma maneira, o sacerdote, depois de ter tomado do altar o Salvador do mundo, verdadeiro Filho de Deus, que, como orvalho, desce do céu, e verdadeiro Filho da Virgem, que, como uma flor, brotou da terra de nossa humanidade, o põe, como manjar de suavidade, em sua boca e em seu coração.

Uma vez que o tenha recebido, move seu coração para render homenagem a este Rei Salvador; fala com Ele no seu interior, contemple-o dentro de si, onde entrou para sua felicidade; finalmente, faça tão boa acolhida quanto possa e porte-se de maneira que, em todos os atos, se conheça que Deus está em ti.

Mas, quando não puder ter a alegria de comungar realmente na santa Missa, comungue, pelo menos, de coração e em espírito, unindo-se, com fervoroso desejo, à esta carne vivificante do Salvador.

Seu grande desejo, na comunhão, tem que avançar, robustecer-te e consolar-te no amor de Deus, porque por amor, deve receber ao que, só por amor, se dá à você.

Não, o Salvador não pode ser considerado em uma atitude nem mais amorosa nem mais terna que esta, e na qual podemos afirmar que é aniquilada e converte em manjar, para penetrar em nossas almas e se unir intimamente ao coração e ao corpo de seus fiéis.

Se os mundanos te perguntam porque comunga com tanta frequência, diga que o faz para aprender a amar a Deus, para purificar-te de suas imperfeições, para consolar-te em suas aflições, para apoiar-te em suas debilidades.

Diga que são dois os tipos de pessoas que comungam com frequência: as perfeitas, porque, estando bem dispostas, faltariam, se não se aproximassem do manancial e da fonte de perfeição, e as imperfeitas, precisamente para que possam aspirar à ela; as fortes, para não enfraquecer, e as fracas, para robustecerem-se; as enfermas, para sarar, e as que gozam de saúde, para não cair enfermas; e você, como imperfeita, fraca e enferma, tem necessidade de se unir, com frequência, com tua perfeição, com sua força e com seu médico.

Diga que os que não estão muito atarefados hão de comungar com frequência, porque têm tempo para isso, e que os que têm muito trabalho também, porque o necessitam, pois os que trabalham muito e andam carregados de penas, hão de tomar manjares sólidos e frequentes. Diga que recebe o Santíssimo Sacramento para aprender a recebê-lo bem, porque não se faz bem aquilo que não se faz com frequência.

Filoteia, comungue muito, tanto quanto puder, com o parecer de seu pai espiritual; e, creia-me, as lebres de nossas montanhas, no inverno, se tornam brancas porque não veem nem comem mais que neve; e você, por força de adorar e comer a beleza, a bondade e a pureza, neste divino Sacramento, chegarás a ser toda formosa, toda boa e toda pura.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

CAPÍTULO XX

DA COMUNHÃO FREQUENTE

Conta-se que Mitridates, rei do Ponto, que, tendo inventado o «mitridato», de tal maneira reforçou com ele seu corpo, que como tentou mais tarde suicidar-se, para não cair na escravidão dos romanos, nunca pôde conseguir.

O Salvador instituiu o augustíssimo Sacramento da Eucaristia, que contém realmente sua carne e seu sangue, para que quem o coma viva eternamente; por esta causa, aquele usa d’Ele com frequência e com devoção, de tal maneira robustece a saúde e a vida de sua alma, que é quase impossível que seja envenenado por algum tipo de maus efeitos.

É impossível alimentar-se desta carne e viver com alterações de morte. Porque, assim como os homens do paraíso terreno poderiam não morrer, pela força daquele fruto de vida que Deus havia posto ali, da mesma maneira podem não morrer espiritualmente, pela virtude deste sacramento de vida.

Se os frutos mais ternos e mais sujeitos à corrupção, como as cerejas, os damascos e morangos, facilmente se conservam todo o ano confeitados com açúcar e com mel, não é de maravilhar que nossos corações, mesmo fracos e miseráveis, sejam preservados da corrupção do pecado, quando estão açucarados e dulcificados com a carne e o sangue do Filho de Deus.

Oh, Filoteia! os cristãos que serão condenados não saberão o que responder, quando o imparcial Juiz lhes faça ver que, por sua culpa, morreram espiritualmente, sendo que era uma coisa muito simples conservar a vida e a saúde, em somente comer seu Corpo, que Ele lhes havia dado com este fim: «Miseráveis -lhes dirá-, porque haveis morrido, tendo-os mandado comer do fruto e do manjar da vida?»

«Quanto a receber a comunhão eucarística todos os dias, nem louvo nem reprovo; quanto a comungar ao menos todos os domingos, o aconselho e exorto a todos que o façam, contanto que a alma fique livre de todo afeto ao pecado».

Assim fala Santo Agostinho, porque não louvo nem reprovo absolutamente que se comungue diariamente, mas o deixo à direção do padre diretor espiritual de cada um, porque, sendo preciso as disposições devidas para a comunhão frequente, não é possível dar um conselho geral; e, como estas disposições podem encontrar-se em muitas almas, não seria certo aconselhar de uma maneira absoluta o afastamento e a abstenção da comunhão diária, pois é uma questão que se tem que resolver tendo em conta o estado interior de cada um em particular.

Seria imprudente aconselhar a todos indistintamente esta prática; mas seria igualmente imprudente censurar os que a seguem, sobretudo se o fazem aconselhados por algum digno diretor.

Foi muito graciosa a resposta de Santa Catarina de Sena, à qual, enquanto falava da comunhão frequente, lhe opuseram que Santo Agostinho não louvava nem reprovava o comungar cada dia: «Pois bem-replicou ela-, porque Santo Agostinho não reprova, vos rogo que tampouco o reproveis vós, e isto me basta».

Filoteia, viste como Santo Agostinho exorta e aconselha que não se deixe de comungar todo domingo; faça-o sempre que te seja possível. Porque, como creio, não tens nenhum afeto ao pecado mortal, nem tampouco ao pecado venial, já estás na verdadeira disposição que Santo Agostinho exige, e ainda com uma disposição mais excelente, pois nem sequer tens afeto ao pecado; portanto, quando parecer bem ao teu pai espiritual, poderás comungar, com proveito, mais de uma vez cada semana.

É possível, portanto, que sobrevenham alguns impedimentos, não precisamente de tua parte, mas da parte daqueles com quem convives, impedimentos que, em alguma ocasião, podem aconselhar a um diretor prudente que te diga que não comungues com tanta frequência.

Por exemplo, se estás sujeito a alguém, e as pessoas às quais deves obediência e sujeição são tão pouco instruídas, ou são tão apegadas ao seu parecer, que se inquietam ou se zangam ao ver que comungas com tanta frequência, talvez, bem consideradas todas as coisas será melhor condescender um pouco com sua debilidade e comungar menos.

Mas isto unicamente se entende no caso em que a dificuldade não possa ser superada de outra maneira. Mas, como isto não se pode precisar de uma maneira geral, será conveniente ater-se, em cada caso ao que disser o pai espiritual. O que posso assegurar-te é que não podem distanciar muito umas das outras as comunhões dos que querem servir devotamente a Deus.

Se és prudente, não terá nem pai, nem esposa, nem marido, que te impeça de comungar frequentemente; porque o ir comungar não será nenhum estorvo para o cumprimento dos deveres próprios de tua condição; mais ainda, como, comungando, serás cada dia mais doce e mais amável com eles e não lhes negarás nenhum serviço, não terá porque temer que se oponham à prática deste exercício, que não lhes acarretará nenhuma doença, a não ser que obrem movidos por um espírito em extremo agitado e incompreensivo; neste caso, o diretor, como já te disse, te aconselhará certa condescendência.

É conveniente, agora, dizer quatro palavras aos casados. Na Lei antiga, não era coisa bem vista que os credores exigissem o pagamento das dívidas em dia festivo, mas aquela Lei nunca reprovou que os devedores cumprissem suas obrigações e pagassem aos que o exigiam.

Quanto aos direitos conjugais, se bem que é bom louvar a moderação, não é pecado fazer uso dos mesmos nos dias de comunhão, e pagá-los não só não é reprovável, mas é justo e meritório. Então, pois, ninguém que tenha obrigação de comungar se há de privar da comunhão por causa das relações conjugais.

Na primitiva Igreja, os cristãos comungavam todo dia, mesmo que estivessem casados e tivessem fruto de bênção; por isto te digo que a comunhão frequente não ocasiona nenhuma doença nem aos pais, nem às esposas, nem aos maridos contanto que a alma que comunga seja prudente e discreta. Quanto às enfermidades corporais, nenhuma pode ser legítimo obstáculo para esta santa participação, a não ser que provocasse com muita frequência o vômito.

Para comungar com frequência basta estar livre do pecado mortal e ter um reto desejo de fazê-lo. Sempre, portanto, é melhor que peças o parecer do diretor espiritual.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA -São Francisco de Sales

CAPÍTULO XIX

DA SANTA CONFISSÃO

Nosso Salvador deixou à sua Igreja o sacramento da Penitência e confissão para que nele nos purifiquemos de nossas iniquidades, sempre que por elas sejamos manchados. Não permita, pois, Filoteia, que seu coração permaneça muito tempo manchado pelo pecado, pois tem um remédio tão a mão e tão fácil.

A leoa se aproximou do leopardo, correu rápido para se lavar, para tirar de si o mal cheiro que este contato deixou nela, a fim de que, quando chegasse o leão não se sentisse, por isso, ofendido e irritado; a alma que consentiu no pecado há de ter horror de si mesma e há de se lavar quanto antes, pelo respeito que deve à divina Majestade, que a está olhando. Por que pois, temos de morrer de morte espiritual, tendo, como temos, um remédio tão excelente?

Confesse-se devota e humildemente cada oito dias, mesmo que a consciência não te acuse de nenhum pecado mortal; desta maneira, na confissão, não só receberá a absolvição dos pecados veniais que confesse, mas também uma grande força para evitá-los daí por diante, uma grande luz para saber conhecê-los bem e uma graça abundante para reparar todas as perdas por eles ocasionados.

Praticará a virtude da humildade, da obediência, da simplicidade e da caridade, e, neste ato só da confissão, praticará mais virtudes que em outro qualquer.

Tenha sempre um verdadeiro desgosto pelos pecados confessados, por pequenos que sejam, e faz um firme propósito de emendar-te daí por diante.

Muitos confessam os pecados veniais por costume e como por cumprimento, sem pensar nada em sua emenda, por que andam, durante toda sua vida, debaixo do peso dos mesmos, e, desta maneira, perdem muitos bens e muitas vantagens espirituais.

Depois, se confessar que mentiu mesmo que tenha sido sem dano a ninguém, ou que disse algum palavrão, ou que tenha julgado demasiado, arrependa-se e faz o propósito de te emendar; porque é um abuso confessar um pecado mortal ou venial sem querer se purificar dele, pois a confissão não foi instituída mais que para isto.

Não faça tão só certas acusações supérfluas, que muitos fazem por rotina: não amei a Deus como devia; não rezei com a devida devoção; não amei ao próximo como convém; não recebi os sacramentos com a reverência que se requer, e outras coisas parecidas.

A razão é, porque, dizendo isto, nada diz, de concreto, que possa dar a conhecer ao teu confessor o estado de tua consciência, pois todos os santos do céu e todos os homens da terra poderiam dizer o mesmo, se se confessassem.

Examina, pois, de que coisas, em particular, precisa te acusar, e, quando tiver descoberto, acusa-te das faltas cometidas, com simplicidade e ingenuidade. Acusa-te, por exemplo, de que não amou o teu próximo como devia; o faz porque encontrou um pobre necessitado, que podia socorrer e consolar, e não fez caso dele?

Pois bem, acuse-se desta particularidade: vi um pobre necessitado, e não o socorri como podia, por negligência, ou por dureza de coração, ou por menosprezo, segundo conheça qual foi o motivo do pecado.

Mesmo assim, – não se acuse, em geral, de não ter se encomendado a Deus com a devoção que devia; mas que, se teve distrações voluntárias ou não teve cuidado em escolher o lugar, o tempo e a compostura requerida para estar atento na oração, acuse-se disso simplesmente, conforme foi a falta, sem andar com variações, que nada importam na confissão.

Não se limite a dizer os pecados veniais quanto ao ato; antes, se acuse do motivo que te induziu a cometê-los. Não se contente em dizer que mentiu sem fazer mal a ninguém; diga se o fez por vanglória, para se desculpar ou se louvar, de brincadeira ou teimosia.

Se pecou nas diversões, diga se se deixou levar pelo prazer na conversa, e assim de outras coisas. Diga se persistiu muito na falta, pois, geralmente, a duração aumenta o pecado, porque é muita a diferença entre uma vaidade passageira, que se terá colado em nosso espírito no espaço de um quarto de hora, e aquela na qual se terá recriado nosso coração, durante um, dois ou três dias.

Portanto, convém dizer o fato, o motivo e a duração dos pecados, pois, mesmo que, ordinariamente, não temos a obrigação de ser tão meticulosos na declaração dos pecados veniais, nem ninguém está obrigado a confessá-los, não obstante, os que querem purificar bem suas almas, para chegar mais facilmente à santa devoção, hão de ser muito diligentes em dar a conhecer ao médico espiritual o mal, por pequeno que seja, do qual desejam ser curados.

Não deixes de dizer nada do que for conveniente para dar a conhecer a qualidade da ofensa, como o motivo pelo qual ficou com raiva ou porque permitiu que alguma pessoa perseverasse em seu vício. Por exemplo, um homem que me é antipático me disse uma piada, alguma coisa leve; eu levo a mal e me ponho irritada; em troca, se outro, com quem simpatizo, me disse algo pior, eu receberei bem.

Não me esquecerei, pois, de dizer: pronunciei algumas palavras iradas contra uma pessoa, porque me irritei por uma coisa que me disse, mas não pelo tipo de palavras, mas porque me é antipática.

E, se for necessário particularizar as frases que disse, para te explicar melhor, fará bem dizendo-as, porque, te acusando ingenuamente, não só descobre os pecados cometidos, mas também as más inclinações, os costumes, os hábitos e as demais raízes do pecado, com o que seu diretor espiritual adquire um conhecimento mais perfeito do coração que trata e dos remédios que necessita. Convém, portanto, o quanto for possível, não descobrir a pessoa que cooperou com seu pecado.

Vigia sobre uma infinidade de pecados que, com muita frequência, vivem e se insinuam insensivelmente na consciência, porque assim o confessará melhor e se purificará deles; com este objetivo, leia atentamente os capítulos VI, XXVII, XXVIII, XXIX, XXXV e XXXVI da terceira parte e o capítulo VIII da quarta parte.

Não mude  facilmente de confessor, mas, quando tiver escolhido um, continua tomando conta da consciência, nos dias destinados a isso, confessando ingênua e francamente os pecados que tiver cometido, e, de vez em quando, por exemplo cada mês, ou cada dois meses, preste atenção também no estado de suas inclinações, mesmo que não te tenha induzido a pecar, como te sentes atormentado pela tristeza ou pelo tédio, ou se te deixas dominar pela alegria, pelos desejos de adquirir riquezas ou por outras inclinações parecidas.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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