TERCEIRA PARTE DA INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA

Muitos avisos sobre o exercício das virtudes

CAPÍTULO I

DA ESCOLHA QUE CONVÉM FAZER QUANTO AO EXERCÍCIO DAS VIRTUDES

O rei das abelhas nunca penetra nos campos se não vai rodeado de seu pequeno povo, e a caridade nunca entra em um coração se não leva consigo todo o séquito das demais virtudes, as quais exercita e faz trabalhar, como um capitão a seus soldados; mas não as põe em ação nem subitamente, nem da mesma maneira, nem sempre, nem em todas as partes.
Justamente é «como a árvore plantada junto a corrente das águas’ que leva seu fruto a seu tempo», porque a caridade, ao roçar uma alma, produz nela as obras de virtude, e cada uma a seu devido tempo.
«A música -diz o Provérbio-, é inoportuna em um duelo». Muitos padecem de um defeito, a saber, que quando empreendem a prática de uma virtude particular, se obstinam em ter atos da mesma em todo tipo de ocasiões, e, como aqueles antigos filósofos, querem ou sempre rir ou sempre chorar; e ainda se conduzem pior quando censuram ou criticam os que não praticam sempre aquelas mesmas virtudes tal como eles o fazem. «É preciso se alegrar com os que estão alegres e chorar com os que choram», disse o Apóstolo, e «a caridade é paciente, benigna», generosa, prudente, condescendente.

Há, não obstante, algumas virtudes que têm um alcance quase universal, que não hão de fazer seus atos isoladamente, mas que hão de derramar suas qualidades sobre os atos das demais virtudes. Não são muito frequentes as ocasiões de praticar a fortaleza, a magnanimidade, a magnificência; mas a doçura, a temperança, a honestidade e a humildade são umas virtudes que hão de informar todas as ações de nossa vida. Há virtudes mais excelentes que estas: o uso, portanto, destas é mais necessário.
O açúcar é mais excelente que o sal; mas o uso do sal é mais frequente e mais geral. Por esta causa, é conveniente ter sempre disponível uma boa provisão dessas virtudes gerais, pois é preciso servir-se delas quase continuamente.

Entre os exercícios das virtudes, temos de escolher o que melhor enquadre com nossa obrigação, e não o que é mais conforme nosso gosto. Santa Paula sentia muito prazer nas asperezas das mortificações corporais, para gozar mais facilmente das doçuras espirituais, mas maior era o dever da obediência a seus superiores, pelo qual reconhece São Jerônimo que era merecedora de repreensão, porque, contra o parecer de seu bispo, fazia abstinências imoderadas.

Pelo contrário, os apóstolos, encarregados de pregar o Evangelho por todo o mundo e de distribuir o pão do céu às almas, creram, muito acertadamente, que teriam trabalhado mal se se tivessem distraído deste santo exercício para praticar a virtude de socorrer os pobres, ainda que esta virtude seja excelente.

Cada vocação tem necessidade de praticar alguma especial virtude: umas são as virtudes do prelado, outras as do príncipe, outras as do soldado, outras as de uma mulher casada, outras as de uma viúva; e, mesmo que todos tenham todas as virtudes, nem todos, portanto, as praticarão igualmente, mas cada um há de exercitar-se, particularmente, naquelas que exige o gênero de vida a que foi chamado.

Entre as virtudes que não afetam nossos deveres particulares, temos que preferir as mais excelentes às mais vistosas. Os cometas nos parecem, normalmente, maiores que as estrelas, e, aparentemente, o são; não obstante, nem em grandeza nem em qualidade podem comparar-se com elas; nos parecem maiores unicamente porque estão mais próximo de nós, e em um meio mais denso, comparado com o das estrelas.

Da mesma maneira, existem certas virtudes que, por estarem mais próximas de nós, porque são simples, e por dizê-lo assim, materiais, são muito apreciadas e sempre preferidas pela população, que tem em mais conta a esmola material que a espiritual, o cilício, o jejum, o despojamento, a disciplina e as mortificações do corpo, que a doçura, a benignidade, o aborrecimento e outras mortificações do coração, que, não obstante, são muito melhores. Escolhe, pois, Filoteia, as virtudes melhores e não as mais apreciadas; as mais excelentes e não as mais vistosas, as melhores e não as que mais aparecem.

É muito útil que cada um escolha um exercício particular de alguma virtude, não para esquecer as demais, mas para ter o espírito mais ajustado, ordenado e ocupado.

Uma formosa donzela, mais resplandecente que o sol, regiamente adornada, embelezada e coroada de oliveira, apareceu a São João, bispo de Alexandria, e lhe disse: «Eu sou a filha do grande rei; se você quiser pode me ter por amiga, te conduzirei em sua presença».
Entendeu o santo que era a misericórdia com os pobres o que Deus lhe recomendava, e, daí em diante, se consagrou totalmente ao exercício desta virtude, e em toda parte, o chamavam São João o Esmoleiro.

Eulógio Alexandrino, desejando fazer algum particular serviço a Deus, e não sentindo-se bastante forte nem para enfrentar a vida solitária, nem para se por sob a obediência de outro, acolheu em sua casa um pobre todo cheio de lepra e desfeito, para exercitar a caridade e a mortificação, e para praticar mais dignamente, fez voto de honrar, tratar e servir o pobre como um criado ao seu amo e senhor. Tentados o leproso e Eulógio de se separarem um do outro, consultaram o grande Santo Antônio, que lhes disse: «Guardai-vos, meus filhos, de separar-vos, porque estando ambos muito próximo do fim, se o anjo não vos encontrar juntos, correreis grande perigo de perder vossas coroas».

O rei São Luís visitava, por voto, os hospitais, e servia os enfermos com suas próprias mãos. São Francisco amava, sobretudo, a pobreza, que chamava sua dama; Santo Domingo se entregou à pregação, a qual tomou o nome de sua Ordem. São Gregório o Grande gostava de tratar com delicadeza os peregrinos, a exemplo do grande Abralian, e, como este hospedou ao Rei da glória, sob a forma de um peregrino. Tobias praticava a caridade enterrando os defuntos; santa Isabel, apesar de ser tão grande princesa, amava muito a própria degradação; Santa Catarina de Gênova tendo ficado viúva, se consagrou ao serviço de hospital.

Conta Cassiano que uma devota donzela, que desejava ser exercitada na virtude da paciência, foi a Santo Atanásio, o qual, para comprazê-la, lhe enviou uma pobre viúva mal humorada, irascível, queixosa e insuportável, a qual, xingando sempre esta devota jovem, lhe deu ocasião de praticar dignamente a doçura e a condescendência.

Assim, entre os servos de Deus, uns se consagram ao serviço dos enfermos, outros para socorrer os pobres, outros para ensinar a doutrina cristã às crianças, outros a guiar as almas perdidas e extraviadas, outros para cuidar das igrejas e para adornar os altares, e outros para fomentar a concórdia e a paz entre os homens. Imitam, nisto, as bordadeiras, as quais, sobre diversos fundos, combinam, com formosa variedade, as sedas, o ouro e a prata para fazer todo tipo de flores; assim, estas almas piedosas que empreendem algum exercício particular de devoção, se servem dele, como um fundo, para seu bordado espiritual, sobre o qual praticam a variedade de todas as demais virtudes, e têm, desta maneira, suas ações e afetos muito unidos e ordenados, porque os relacionam com seu exercício principal, e assim fazem que seja mais formosa sua alma, com seu vistoso tecido de ouro ataviado, e com todas as filigranas bem bordada.

Quando precisamos combater algum vício, na medida do possível, é necessário empreender a prática da virtude contrária, fazendo que todas as demais cooperem, pois assim venceremos a nosso inimigo e não deixaremos de avançar em todas as virtudes.

Se me sinto dominado pelo orgulho ou pela ira, será necessário que, em todas as coisas, me incline e me curve do lado da humildade e da mansidão, e que, para este fim, endireite os demais exercícios da oração, dos sacramentos, da prudência, da constância, da sobriedade.

Porque assim como os javalis para afiar suas defesas, esfregam e usam os dentes, os quais, por sua vez, ficam muito finos e cortantes, assim o homem virtuoso, depois de ter cometido a empresa de aperfeiçoar-se na virtude que lhe é mais necessária para sua defesa, há de polir e limar com o exercício das demais virtudes, as quais, por sua vez afiam aquela, fazem elas mesmas bem melhores e perfeitas, como ocorreu a Jó, que, ao praticar, de um modo especial, a paciência, contra as tentações que lhe acometeram, se fez santo e virtuoso em toda sorte de virtudes.

E ainda ocorreu que, como disse São Gregório Nazianzeno, por um só ato de virtude, praticado com perfeição, uma pessoa chega ao cume da santidade, e põe como exemplo Raab, o qual, por ter praticado de uma maneira perfeita a hospitalidade, chegou a uma glória suprema; mas isto se entende quando o ato se faz de uma maneira excelente, com grande fervor e caridade.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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