CAPÍTULO III

DA PACIÊNCIA

«É necessário que tenhais paciência, para que, cumprindo a vontade de Deus, alcanceis sua promessa», disse o Apóstolo.

Sim, porque, como tinha dito o Salvador, «em vossa paciência, possuireis vossas almas». Este é o grande bem do homem, Filoteia: possuir sua alma; e, conforme for mais perfeita nossa paciência, mais perfeitamente também possuímos nossas almas.

Recorda, com frequência, que Nosso Senhor nos salvou sofrendo e aguentando, e que, assim, nós temos de conseguir nossa salvação com os sofrimentos e aflições, aguentando as injúrias, contradições e penas, com toda a suavidade que nos seja possível.

Não limites tua paciência em tal ou qual tipo de injúrias e de aflições, mas estende-a universalmente a todas as que Deus te envie ou permita que te sobrevenham. Há alguns que só querem sofrer as tribulações que são honrosas, como, por exemplo, serem feridos ou caírem prisioneiros na guerra, serem maltratados por causa de sua fé, empobrecer-se por algum pleito depois de tê-lo ganhado; mas estes não amam a tribulação, mas a honra que acarreta.

O verdadeiro paciente e servo de Deus, da mesma maneira sofre as tribulações vinculadas à ignomínia, como as honrosas.
Ser desprezado, repreendido e acusado pelos males, não é senão doçura para um homem de caráter; mas ser repreendido, acusado e maltratado pelas pessoas de bem, pelos amigos, pelos pais, eis aqui onde está o mérito.

É mais digna de estima a mansidão com que São Carlos Borromeu suportou, durante muito tempo, as públicas repreensões que um grande pecador, de uma Ordem extremamente reformada, lançava contra ele dos púlpitos, e a paciência com que tolerou os ataques de todos os demais.

Porque, assim como as picadas de abelhas ardem mais que as das moscas, então o dano que recebemos das pessoas boas e a contradição de que estas nos fazem objeto, são mais insuportáveis que as dos demais, e ocorre, com frequência, que dois homens de bem, cheios de boa intenção, pelo motivo de diversidade de opiniões, se causam mutuamente grandes contradições e perseguições.

Seja paciente, não só na maior e principal das aflições que te sobrevenham, mas também no acessório e acidental que delas se deriva. Muitos queriam suportar algum mal, mas sem sentir a doença. «Pouco me importaria, disse alguém, ter-me empobrecido, se não fosse porque isto me privará de servir aos meus amigos, de educar os meus filhos e de viver de uma maneira honrosa, conforme quisesse».

E outro dirá: «Eu não me importaria, se não fosse porque o mundo crerá que isto ocorreu por minha culpa». Outro facilmente se conformaria com paciência, que falassem mal dele, contanto que ninguém acreditasse no caluniador. Outros quiseram sofrer algumas doenças do mal, mas nem todas; não se impacientam, dizem, porque estão enfermos, mas porque não tem recursos para poder se cuidar, ou pelos mal estares que causam aos que lhes rodeiam.

Mas eu digo, Filoteia, que precisa ter paciência, não só por estar doente, mas também por ter a doença que Deus quer, onde quer, entre as pessoas que quer e com as incomodidades que quer, e assim em todas as outras tribulações.

Quando te sobrevir algum mal, procura combater, conforme a vontade de Deus, porque fazer de outra maneira seria tentar sua divina Majestade; mas, depois, espere com inteira resignação o resultado que Deus permitir. Se Ele quiser que os remédios vençam o mal, dará graças com humildade; mas, se o mal for mais forte que os remédios, bendize-o também com paciência.

Sou da opinião de São Gregório: se for acusada justamente, por alguma culpa que tenha cometido, humilhe-se muito, reconhece-se merecedora da acusação que contra o que fez.

Se a acusação for falsa, desculpe-se com doçura, negando que seja culpada, porque te obriga a isso a reverência à verdade e a edificação do próximo; mas, se depois de sua verdadeira e legítima desculpa, persistir a acusação, não se perturbe de maneira alguma, nem se esforce por fazer aceitar suas razões, porque, uma vez que cumpriu seu dever com a verdade, tens de cumpri-lo com a humildade.

Queixe-se tão pouco como puder das injúrias que te façam, porque é coisa certa que, ordinariamente, quem só se queixar peca, porque o amor próprio sempre exagera as injúrias; mas, sobretudo, não se lamentes na presença de pessoas inclinadas a indignar-se e a pensar mal.

E, se fosse conveniente desabafar com alguém, ou para por remédio à ofensa, ou para acalmar seu espírito, faça com alma tranquila e que amem muito a Deus, porque de outra maneira, em lugar de dar descanso ao seu coração, provocarão maiores inquietudes; em lugar de arrancar o espinho que te fere, o cravarão mais fortemente em seu pé.

Muitos, quando estão doentes, ou quando foram afligidos ou ofendidos por alguém, se guardam muito em queixar-se e de mostrarem-se ressentidos, porque lhes parece (e está certo) que isto denota evidentemente uma grande falta de energia e de generosidade; mas desejam, de grande maneira, e buscam, com mil rodeios, que todos se compadeçam, que tenham muita lástima deles e que se lhes considere, não somente afligidos, mas também pacientes e corajosos.

Claro é que isto é paciência, mas é uma paciência falsa, a qual bem considerada, não é mais que uma muito delicada e muito fina ambição e vaidade: «Estes têm glória -disse o Apóstolo, mas não diante de Deus».

O verdadeiro paciente não se queixa do mal, nem deseja que se compadeçam; fala dele com ingenuidade, verdade e simplicidade, sem se lamentar, sem se queixar, sem exagerar, e, se se compadecem, o tolera pacientemente, a não ser que se compadeçam de um mal que não tem; porque, então, declara modestamente que não padece do mal, e, se o tem, permanece com ar tranquilo entre a verdade e a paciência, reconhecendo-o, mas sem se queixar.

Nas contradições que sobrevirão no exercício da devoção(porque não faltarão), recorde das palavras de Nosso Senhor: «A mulher, quando está para dar a luz padece grandes angústias; mas, ao ver seu filho nascido, as esquece, porque deu a luz a um homem no mundo.>.

Você concebeu em tua alma ao mais digno filho do mundo, que é Jesus. Antes que se forme de tudo, forçosamente sentirás angústias: mas tem coragem, porque, uma vez passados estes sofrimentos, -ficará o gozo eterno de ter dado a luz a tal homem; Ele permanecerá inteiramente formado em seu coração e em sus obras pela imitação de sua vida.

Quando estiver doente, oferece todos suas dores, penas, e angústias ao serviço de Nosso Senhor, e suplique que os una aos tormentos que sofreu por ti. Obedece ao médico: toma os medicamentos, os alimentos e os outros remédios por amor de Deus e recorda do fel que tomou por amor nosso.

Deseja curar-se para servir-lhe; mas não recuse ser ofendido por obedecer-lhe, e disponha a morrer, se assim o quiser, para louvar-lhe e gozar-lhe.

Recorde-se de que as abelhas, quando fabricam o mel, vivem e se alimentam de coisas muito amargas e que, da mesma maneira, nós nunca podemos fazer atos de maior doçura e paciência, nem colher melhor o mel das mais excelentes virtudes, que comendo o pão da amargura e vivendo de angústias.

E, assim como o mel extraído da flor do tomilho, erva pequena e amarga, é a melhor de todas, assim a virtude, que se exercita nas amarguras das mais vis, baixas e abjetas tribulações, é a mais excelente de todas.

Contempla, com frequência, com os olhos interiores, Jesus crucificado, despojado, blasfemado, caluniado, abandonado, e, finalmente, saturado de todo tipo de angústias, de tristezas e de trabalhos, e considera que todos seus sofrimentos, nem em qualidade, nem em quantidade, não podem, de maneira alguma, comparar-se com os seus, e que jamais padecerás por Ele coisa alguma, que equivalha ao que Ele sofreu por ti.

Considera as penas que sofreram os mártires e as que sofrem tantas pessoas, mais graves, sem comparação, que as que a ti te afligem, e diga: « Ah, Senhor!, meus trabalhos são consolos e minhas penas são rosas, comparadas com as daquelas pessoas que vivem em uma morte contínua, sem socorro, sem assistência, sem alívio, carregadas de aflições infinitamente maiores».

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA -São Francisco de Sales