CAPÍTULO V

DA HUMILDADE MAIS INTERIOR

Porém você, Filoteia, deseja que se conduza mais adiante pelo caminho da humildade, pois tudo o que lhe disse é mais prudência que humildade; agora, pois, iremos mais além.

Muitos não querem nem se atrevem a pensar e a considerar as graças que Deus tem feito a eles em particular, temerosos de sentir vanglória e complacência, no que, certamente, se enganam, porque, como disse o grande Doutor Angélico, o verdadeiro meio para alcançar o amor de Deus, é a consideração de seus benefícios; quanto mais reconhecemos, mais o amaremos; e como que os benefícios particulares movem mais que os comuns, devem ser considerados com mais atenção.

A verdade, nada pode humilhar-nos tanto diante da misericórdia de Deus como a consideração de seus benefícios, nem nada pode humilhar-nos tanto diante de sua justiça como a multidão de nossos pecados.

Consideremos o que Ele tem feito por nós e o que nós temos feito contra Ele, e, assim quando pensamos minuciosamente em nossos pecados, pensemos também minuciosamente em suas graças. Não temos que temer que o que Deus colocou de bom em nós nos inche, quando tenhamos bem presente esta verdade: que nada do quanto há em nós é nosso.

Ah, Senhor! Deixam os burros de serem animais pesados e mal cheirosos, pelo fato de levar as costas os pertences preciosos e perfumados do príncipe? Que temos de bom, que não tenhamos recebido? E, se o temos recebido, por que nós temos de ficar orgulhosos?

Ao contrário, a consideração viva das graças recebidas nos humilha, pois o conhecimento engendra o reconhecimento. Mas, se, ao recordar as graças que Deus nos tem feito, ficamos com certa vaidade, o remédio infalível será ir para a consideração de nossas ingratidões, de nossas imperfeições, de nossas misérias.

Se meditarmos no que temos feito quando Deus não tem estado conosco, com certeza veremos que o que temos praticado quando tem estado conosco não é segundo nossa maneira de ser nem de nossa própria colheita; muito nos alegraremos certamente de possuí-lo, mas não glorificaremos por isso mais que a Deus, porque Ele é o único autor.

Assim a Santíssima Virgem confessa que Deus fez nela grandes coisas, mas reconhece unicamente para humilhar-se e glorificar a Deus:«Minha alma, disse, glorifica o Senhor, porque fez em mim grandes coisas».

Dizemos muitas vezes que não somos nada, que somos a mesma miséria e o dejeto do mundo, mas muito nos doeria que alguém fizesse suas nossas palavras e andasse dizendo de nós o que somos. Ao contrário, fazemos como quem foge e se esconde, para irem em busca de nós e nos achem: fingimos que queremos ser os últimos e que queremos ocupar o último lugar na mesa, mas com a finalidade de passar honrosamente ao primeiro.

A verdadeira humildade não toma ar com qualquer coisa e não diz muitas palavras humildes, porque não só deseja ocultar as outras virtudes, mas também e principalmente deseja ocultar-se ela mesma, e, se lhe fosse lícito mentir, fingir ou escandalizar o próximo, faria atos de arrogância e de soberba, para esconder-se e viver totalmente desconhecida e escondida.

Eis aqui, pois, meu conselho, Filoteia: não digamos palavras de humildade, nem digamos com um verdadeiro sentimento interior, de acordo com o que pronunciamos exteriormente; não baixemos nunca nossos olhos, se não for humilhando nosso coração; não aparentemos que desejamos ser os últimos, se não o queremos ser de verdade. Torno tão geral esta regra, que não faço nenhuma exceção, unicamente acrescento que, às vezes, exige a cortesia que demos a preferência àqueles que evidentemente não a teriam, mas isto não é nem duplicidade e falsa humildade, porque então só o oferecimento do lugar preferente é um começo de honra, e, claro que não é possível dá-lo todo inteiro, não é nenhum mal dar-lhes seu começo.

O mesmo digo de algumas palavras de honra ou de respeito, que, a rigor, não parecem verdadeiras, mas o são, contanto que o coração daquele que as pronuncia tenha intenção de honrar e respeitar aquele a quem as disse; porque, mesmo que certas palavras signifiquem com algum excesso o que dizemos, não faltamos, ao dizê-las, quando o costume o requer.

É verdade que, além disto, quisera eu que nossas palavras se ajustassem, na medida do possível, a nossos afetos, para praticar sempre, em tudo, a humildade e o candor do coração.

O homem humilde preferirá que outro diga dele que é miserável, que não é nada, que não vale nada, a dizer ele de si mesmo; ou, ao menos, quando saiba que o dizem, procurará não desvanecer, e consentirá nisso de bom grado; porque, posto que ele assim o crê firmemente, fica contente de que os demais sejam do mesmo parecer.

Muitos dizem que deixam a oração mental para os perfeitos, porque não são dignos dela; outros dizem que não se atrevem a comungar com frequência, porque não se sentem bastante puros; outros dizem que por causa de sua miséria e fragilidade, temem desonrar a devoção se a praticam; outros se negam a empregar seus talentos no serviço de Deus, porque, segundo afirmam, conhecem sua fraqueza e tem medo de tornarem-se soberbos se forem instrumentos de algum bem, e temem ficar as escuras, quando iluminam as demais.

Todas estas coisas não são senão artifícios e uma espécie de humildade não somente falsa, mas também, maligna, com a qual pretendem, tácita e sutilmente, desacreditar as coisas de Deus, ou, ao menos, cobrir, com a capa de humildade o amor próprio que há em seu parecer, em seu caráter e em sua indolência.
«Peça ao Senhor um sinal do alto dos céus ou da profundeza do mar», disse o Profeta ao desditado Acaz, e ele respondeu: «Não pedirei nem tentarei o Senhor». *Oh, o malvado! Finge uma grande reverência a Deus, e, com o pretexto de humildade, se desculpa por aspirar a graça, a qual o convida à divina bondade.

Mas, quem não vê que, quando Deus quer dar-nos graças, é orgulhoso o recusá-las? Porque os dons de Deus nos obrigam a aceitar e que a humildade consiste em obedecer e em seguir tão de perto, quanto for possível, seus desejos? Pois bem, o desejo de Deus é que sejamos perfeitos, unindo-nos a Ele e imitando-o quanto possamos.

O orgulhoso que se fia em si mesmo, tem muita razão quando não quer empreender nada; mas o humilde bem mais animado, quanto mais impotente se reconhece, e, quanto mais miserável se considera, tanto mais corajoso é, porque tem clara toda sua confiança em Deus, que se compraz em fazer resplandecer sua onipotência em nossa debilidade e levantar sua misericórdia sobre o pedestal de nossa miséria.

Convém, pois, que nos atrevamos humilde e santamente a fazer tudo o que aqueles que dirigem a nossa alma creem conforme nosso aproveitamento.

Pensar que sabemos o que ignoramos, é uma necessidade evidente; querer sentar praça de sábios, no que não conhecemos, é uma vaidade intolerável; quanto a mim, não quisera fazer de sábio no que sei, nem tampouco fazer de ignorante. Quando a caridade exige, se há de comunicar sinceramente e com doçura o próximo, não só aquele que necessita para sua instrução, mas também, aquele que é útil para seu consolo; porque a humildade que esconde e encobre as virtudes, para conservá-las, as faz, não obstante, aparecer, quando a caridade exige, para aumentá-las, engrandecê-las e aperfeiçoá-las.

Nisto, se parece àquela árvore da ilha de Tilos, que, de noite, oprime e mantém fechadas suas belas flores vermelhas, e não as abre até que sai o sol, de maneira que os habitantes daquela região dizem que estas flores dormem de noite.

Assim mesmo, a humildade cobre e oculta todas nossas virtudes e perfeições humanas, e nunca as deixa entrever, se não é obrigada pela caridade, a qual, sendo, como é, uma virtude não humana, mas celestial, não moral, mas divina, é o verdadeiro sol de todas as virtudes, sobre as quais sempre há de dominar, porque a humildade que dana a caridade é indubitavelmente falsa.

Eu não quero nem ser o néscio nem ser o sábio, porque se a humildade me impede de ser o sábio, a simplicidade e a sinceridade me impedem ser o néscio; e, se a vaidade é contrária à humildade, o artifício, a afetação e a ficção são contrárias à simplicidade e à sinceridade.

E, se alguns servos de Deus se fingiram de loucos, para fazer-se mais abjetos aos olhos do mundo, é necessário admirar-lhes, mas não imitar-lhes, pois eles tiveram motivos para chegar a estes excessos, os quais são tão particulares e extraordinários, que ninguém há de tirar disso consequências para si. E, quanto a Davi, que dançou e saltou diante da Arca da Aliança algo mais do que convinha sua condição, não o fez porque quisesse parecer louco, mas porque, simplesmente, e sem artifício, fez aqueles movimentos exteriores, em consonância com a extraordinária e desmesurada alegria que sentia em seu coração.

É verdade que, quando Micol, sua esposa, olhou para seu rosto, como se fosse uma loucura, ele não se afligiu ao se ver humilhado, mas, perseverando na ingênua e verdadeira demostração de seu gozo, deu testemunho de que estava contente de receber um pouco do opróbrio por seu Deus.

Portanto, digo que, se pelos atos de uma verdadeira e ingênua devoção, lhe tem por vil, abjeta ou louca, a humildade fará que se alegre deste feliz opróbrio, por causa do qual não será você, mas os que lhe o deduzem.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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