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CAPÍTULO VII

COMO SE CONSERVAR O BOM NOME PRATICANDO, POR SUA VEZ, A HUMILDADE

O louvor, a honra e a glória não se tributam a um homem por uma simples virtude, mas por uma virtude excelente. Porque, pelo louvor, queremos persuadir os demais que apreciem a excelência de alguém; pela honra, significamos que apreciamos nós mesmos, e pela glória, ao meu modo de ver, não é outra coisa que certo resplendor da reputação, que irradia do conjunto de muitos louvores e honras; de maneira que os louvores e as honras são como as pedras preciosas, de cujo conjunto irradia a glória como um brilho.

Bem, a humildade, não pode ser quando nós nos achamos mais elevados ou queremos ser preferidos aos outros, tampouco pode permitir que busquemos louvor, honra e glória, que se devem ser dadas só à excelência.

Contudo, a humildade é conforme a advertência do Sábio, o qual nos diz para «termos cuidado com nossa fama», porque o bom nome é a estima, não de excelência alguma, mas de uma simples e comum probidade e integridade de vida, cujo conhecimento em nós não impede a humildade como tampouco impede que desejemos a reputação disso.

É verdade que a humildade desprezaria a boa fama, se a caridade não tivesse necessidade dela; mas, porque ela é um dos fundamentos da sociedade humana, e porque, sem ela, não só somos inúteis mas também prejudiciais ao público, por este motivo, por causa do escândalo que aquele receberia, exige a caridade, e a humildade admite, que desejemos e conservemos cuidadosamente a boa fama.

Além disso, assim como as folhas das árvores, que por si só não são muito apreciáveis, não obstante servem muito, não só para embelezá-las, mas também para conservar os frutos enquanto são tenros; da mesma maneira, a boa fama, que, por si só também não é coisa muito desejável, não deixa de ser muito útil, não somente para o ornato de nossa vida, mas também para a conservação de nossas virtudes, especialmente das virtudes ainda tenras e fracas: a obrigação de conservar nossa reputação e de ser tais quais se nos reputa, nos obriga a um esforço generoso, a uma firme e doce violência.

Conservemos nossas virtudes, minha querida Filoteia, porque são agradáveis a Deus, grande e soberano objeto de nossas ações; mas, assim como os que querem guardar os frutos não se contentam em enfeitá-los, mas os põem em recipientes próprios para a conservação dos mesmos, da mesma maneira, mesmo o amor divino sendo o principal conservador de nossas virtudes, podemos, não obstante, empregar o bom nome, como muito útil e propício pela dita conservação.

Não é necessário, contudo, que sejamos demasiado zelosos, exatos e meticulosos nesta conservação, porque os que são demasiado delicados e sensíveis no tocante a sua reputação, se parecem aos que tomam medicamentos para todo tipo de pequenas doenças: estes, ao querer conservar sua saúde, perdem tudo, e aqueles, querendo conservar tão delicadamente a reputação, a perdem completamente, já que com este desassossego se tornam estranhos, queixosos, insuportáveis, e provocam a malícia dos murmuradores.

O dissimular e o desprezar a injúria e a calúnia é ordinariamente um remédio muito mais saudável que o ressentimento, a contestação e a vingança: o desprezo desvanece aquelas ofensas; mas quem fica com raiva, parece que as confessa. Os crocodilos não fazem mal senão aos que os temem, e a maledicência, unicamente aos que a levam a mal.

O temor excessivo de perder a fama afirma uma grande desconfiança do fundamento da mesma, que é a verdade de uma vida boa. Os povos que, sobre os grandes rios, só têm pontes de madeira, temem que a corrente as leve, ao sobrevir qualquer inundação; mas os que têm pontes de pedra, só temem as inundações extraordinárias.

Então os que têm uma alma solidamente cristã desprezam, ordinariamente, os transbordamentos de línguas injuriosas; mas os que se sentem fracos, se inquietam por qualquer coisa.

É certo, Filoteia, que quem quer ter boa reputação diante de todos, a perde totalmente, e merece perder a honra quem quer receber dos que estão verdadeiramente difamados e desonrados pelos vícios.

A reputação é como um sinal que dá a, conhecer onde habita a virtude; a virtude, portanto, há de ser, em tudo e por tudo, preferida. Por isto, se alguém te diz: é um hipócrita, porque pratica a devoção, ou te tem por pessoa medrosa, porque perdoaste uma injúria, ria de tudo isto. Porque, independentemente destes julgamentos que fazem as pessoas néscias e estúpidas, mesmo que tivesse de perder a fama não deveria deixar a virtude nem te desviar de seu caminho, porque é preciso preferir o fruto às folhas, ou seja o bem interior e espiritual a todos os bens exteriores.

Temos de ser zelosos, mas não idólatras de nosso bom nome, e, se não convém ofender o olho dos bons, tampouco se há de desejar contentar o do mal. A barba é um adorno no rosto do home, e os cabelos na cabeça da mulher; se se arranca todo o cabelo do rosto e o cabelo da cabeça, dificilmente tornarão a aparecer; mas, se só se corta o cabelo e faz a barba, logo o cabelo voltará a crescer e será mais forte e mais áspero.

Da mesma maneira, mesmo a fama sendo cortada, ou toda apagada, pela língua dos maldizentes, que, como disse Davi, «é uma navalha afiada», não é preciso inquietar-se, porque logo voltará a sair, não só bela como antes, mas muito mais forte. Mas, se nossos vícios, nossos delitos graves, nossa má vida, nos tiram a reputação, será difícil que jamais volte, porque foi arrancada pela raiz.

E a raiz da boa fama é a bondade e a probidade, a qual, enquanto permanece em nós, pode reproduzir sempre a honra que lhe é devida.

É necessário deixar aquela má conversa, aquela prática inútil, aquela amizade frívola, esta louca familiaridade, se isto prejudica a boa fama, porque vale mais esta que toda qualquer vã complacência; mas, se, por causa do exercício da piedade, do adiantamento na perfeição e da marcha para o bem eterno, murmuram, repreendem ou caluniam, deixemos que os mastins ladrem contra a lua, porque, se podem levantar algum conceito desfavorável a nossa reputação e, desta maneira, cortar rente os cabelos e a barba de nossa fama, logo renascerá esta, e a navalha da maledicência servirá a nossa honra, como para a vinha serve a podadeira, pela qual aquela cresce e vê multiplicados seus frutos.

Tenhamos sempre os olhos fixos em Jesus crucificado; caminhemos em seu serviço, com confiança e simplicidade, mas prudente e discretamente: Ele será o protetor de nossa reputação, e, se permite, que nos seja arrebatada, será para procurar-nos outra melhor ou para fazer-nos avançar na santa humildade, um só centavo que vale mais que cem libras de honra.

Se se nos recriminarem injustamente, oponhamos tranquilamente a verdade à calúnia; se esta persiste, perseveremos nós na humildade; deixando desta maneira nossa reputação, juntamente com nossa alma, nas mãos de Deus, não poderemos assegurá-la melhor. Sirvamos a Deus «com boa ou má fama» a exemplo de São Paulo, para que possamos dizer com Davi: « Oh Meu Deus!, por Ti suportei o opróbrio, e a confusão cobriu minha faca».

Exceto, não obstante, certos crimes tão horríveis e infames, cuja calúnia ninguém deve tolerar, quando justamente pode se dissipar, e também se hão de excetuar certas pessoas de cuja boa reputação depende a edificação de muitos, pois, nestes casos, como ensinam os teólogos, se há de procurar, com sossego, a reparação da injúria recebida.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA -São Francisco de Sales

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