jesus and mary

CAPÍTULO VIII

DA AMABILIDADE PARA COM O PRÓXIMO E DOS REMÉDIOS CONTRA A IRA

O Santo Crisma, que, pela tradição apostólica, é usado na Igreja nas confirmações e bênçãos, é composto de azeite de oliva mesclado com bálsamo, e representa as duas virtudes mais apreciadas que resplandecem na sagrada pessoa de Nosso Senhor, e que Ele nos recomendou singularmente, como se, por elas, nosso coração tivesse de estar especialmente consagrado a seu serviço e aplicado em sua imitação: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração». A humildade nos aperfeiçoa com respeito a Deus, e a amabilidade com respeito ao próximo. O bálsamo, que, como disse, fica sempre debaixo de todos os demais licores, representa a humildade, e o azeite de oliva, que sempre fica em cima, representa a doçura e a benignidade, que sobrepuja todas as coisas e predomina entre as demais virtudes, como flor que é da caridade, a qual, segundo São Bernardo, é perfeita quando não só é paciente, mas também amorosa e benigna. Mas procure, Filoteia, que este crisma místico, composto de amabilidade e de humildade, esteja dentro de teu coração; porque um dos grandes artifícios do inimigo é fazer que muitos se comprazam nas palavras e nos modelos exteriores destas duas virtudes, e que, deixando de examinar seus afetos interiores, se imaginem que são humildes e amorosos, sem que o sejam na realidade, que se conhece, porque, apesar de sua cerimoniosa humildade e doçura, a menor palavra fica incomodado com que lhes diga, a menor injúria que recebam, se erguem com uma arrogância sem igual. Diz-se que quem tomou preventivamente, a popularmente chamada «graça de São Paulo», não incham, mesmo sendo mordidas ou picados pela víbora, contanto que a «graça» seja de boa qualidade. Da mesma maneira, quando a humildade e a doçura são boas e verdadeiras, nos imunizam contra o inchaço e contra o ardor que as injúrias provocam em nossos corações. E, se depois de ter sido picados ou mordidos pelos maldizentes ou pelos inimigos, nos sentimos alterados, inchados ou vingativos, sinal é de que nossa humildade e amabilidade não são verdadeiras e francas, mas artificiais e aparentes.

Aquele santo e ilustre patriarca José, quando enviou seus irmãos do Egito à casa de seu pai, só lhes fez esta advertência: «Não vos enraiveceis pelo caminho». O mesmo te digo, Filoteia: esta miserável vida não é mais que um caminho até a bem aventurança; não nos zanguemos, pois, uns com os outros, neste caminho; andemos sempre agrupados com nossos irmãos e companheiros, docemente, pacificamente, amigavelmente. Adverte o que te digo com toda clareza e sem excepção alguma, que, sendo possível, não te zangues nunca, nem tomes pretexto algum, seja qual for, para abrir a porta de teu coração à ira, porque disse São Tiago, sem rodeios nem reservas, que «a ira do homem não trabalhe a justiça de Deus».

É preciso, certamente, opor-se ao mal e reprimir os vícios dos que estão sob nosso cuidado, com constância e com firmeza, mas doce e suavemente. Nada sossega tanto o elefante irado como a vista de um cordeirinho, nem nada para com mais facilidade o golpe dos canhões com a lã. A correção que procede da paixão, mesmo acompanhada da razão, nunca é tão bem recebida como a que não tem outra origem que só a razão; porque a alma racional, por estar naturalmente sujeita à razão, só se sujeita à paixão pela tirania, porque, quando a razão anda acompanhada da paixão, se torna odiosa, pois seu justo domínio fica envilecido ao associar-se com a tirania. Os governantes honram e consolam infinitamente os Povos quando os visitam e são de paz, mas quando chegam em frente dos exércitos, mesmo que seja para o bem público, sua presença sempre é desagradável e prejudicial, porque, por mais que se esforcem em fazer observar exatamente a disciplina militar entre os soldados, nunca podem, contudo, evitar alguma desordem, porque os homens de bem são atropelados. Então, quando reina a razão e executa serenamente os castigos, as correções e as repreensões, ainda que o faça com rigor e exatidão, todos a apreciam e a aprovam; mas quando vai acompanhada da ira, da cólera e da raiva, que, como disse Santo Agostinho, são seus soldados, se torna mais espantosa que amável, seu próprio coração fica sempre pisoteado e maltratado: «Vale mais, disse o mesmo santo escrevendo ao bispo Profuturo, fechar as portas à ira justa e equitativa, que abri-las, por insignificante que seja, porque, uma vez que entrou, é difícil fazê-la sair, porque entra como pequeno ramo e, em um momento, cresce e se converte em tronco». Se a raiva pode chegar à noite e o sol se põe sobre nossa ira (coisa que o Apóstolo proíbe), se converte em ódio, e quase não há maneira de desfazer-se dela, porque se alimenta de mil persuasões falsas, porque jamais o homem irado crê que seja injusta sua ira.

É, pois, melhor esforçar-se para saber viver sem ira que querer empregá-la com moderação e prudência, e, quando, por imperfeição ou debilidade, nos vemos surpreendidos pela mesma, é preferível rechaçá-la em seguida a querer pactar com ela, pois por pouco cumprimento que se le dê, se faz dona da praça, e faz como a serpente, que, com facilidade, consegue meter todo o corpo ali onde podia meter a cabeça. Mas me dirás: como a rechaçarei? É preciso, Filoteia, que, ao advertir o primeiro ressentimento, reúnas tuas forças com presteza, mas sem rapidez nem ímpeto, mas doce e seriamente por vez; porque, assim como nos senados e nos parlamentos, fazem mais ruído os oficiais gritando: « Silêncio! », do que aqueles que querem calar, da mesma maneira, o querer reprimir nossa ira com impetuosidade, causa em nosso coração mais perturbação do que ela tivesse causado, e, entretanto, o coração, perturbado desta maneira, não pode ser dono de si mesmo.

Depois deste suave esforço, pratica o conselho que Santo Agostinho, quando já era velho, dava ao jovem bispo Auxílio: «Faz, dizia, o que um homem há de fazer; que se te ocorre o que o homem de Deus disse no salmo: meu olho ficou perturbado com grande cólera, vais a Deus e exclames: Senhor, tem misericórdia de mim, para que estenda sua mão e reprima tua raiva». Quero dizer que quando nos vejamos agitados pela cólera, invoquemos o auxílio de Deus, a imitação, dos Apóstolos quando se viram em perigo de afundar, pelo vento e a tempestade, em meio das ondas; pois Ele mandará nossas paixões que se acalmem, e se seguirá uma grande bonança. Mas te advirto que a oração que se faz contra a ira impetuosa do momento, há de ser suave e tranquila, jamais violenta; coisa que é preciso observar em qualquer remédio que se empreguem contra este mal.
Depois, em seguida que te perceba de que cometeste um ato de cólera, repara a falta com um ato de doçura, feito imediatamente com respeito para aquela pessoa contra a qual te irritastes. Porque, assim como é um excelente remédio contra a mentira, retratar-se em seguida, assim também é um bom remédio contra a cólera repará-la imediatamente, com um ato de amabilidade; porque, como dizer, as feridas se curam com mais facilidade quando estão frescas.

Além disso, quando te sintas sossegada e livre de qualquer motivo de ira, faz grande provisão de doçura e de bondade, dizendo todas as palavras e fazendo todas as cosas, grandes e pequenas, da maneira mais suave que te seja possível, recordando que a Esposa, no Cântico dos Cânticos, não só tem o mel nos seus lábios e na ponta da língua, mas também debaixo da língua, ou seja, no peito, e não somente tem mel, mas também leite, porque além de ter palavras doces com o próximo, convém ter doce todo o peito, ou seja, todo o interior de nossa alma.

E é preciso ter, não somente a doçura do mel, que é aromático e cheiroso, ou seja, a suavidade no trato com os estranhos, mas também a doçura do leite com os familiares e com os mais próximos a nós, contra o qual faltam de grande maneira aqueles que na rua parecem anjos, e em casa parecem demônios.

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales