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CAPÍTULO XV

 

COMO HÁ DE PRATICAR A POBREZA REAL QUEM É RICO DE FATO

 

O pintor Parrasio de Éfeso pintou o povo ateniense de uma maneira muito engenhosa, representando-o com um caráter diverso e variável, colérico, injusto, inconstante, cortês, clemente, misericordioso, altivo, glorioso, humilde, valente e pusilânime e tudo isto em um conjunto; mas eu, amada Filoteia, quero por juntas em teu coração a riqueza e a pobreza, um grande cuidado e um grande desprezo das coisas temporais.

 

Há de ter muito mais interesse do que tem os mundanos em fazer que teus bens sejam úteis e frutuosos. Diga-me: os jardineiros dos grandes príncipes não são muito mais solícitos e diligentes em cultivar e embelezar os jardins que tem sob seu cuidado, que se fossem de sua propriedade? Por que isto?

 

Sem dúvida, porque consideram aqueles jardins como jardins de príncipes e de reis, aos quais desejam fazer-se gratos por estes serviços. Bem, Filoteia, os bens que temos não são nossos: Deus nos deu e quer que os façamos úteis e frutuosos, porque lhe prestamos um serviço agradável quando temos este cuidado.

 

Porém convém que seja um cuidado maior e mais sólido que o que tem os mundanos com seus bens, porque estes só trabalham por amor de si mesmos, e nós trabalhamos por amor de Deus; assim como o amor de si mesmo é um amor violento, turbulento e inquieto, assim também o cuidado que produz está cheio de perturbação, de tristeza e de inquietude; e, assim como o amor de Deus é doce, meigo e tranquilo, assim a solicitude que dele se deriva, mesmo que se trate dos bens da terra, é amável, doce e graciosa.

 

Tenhamos, pois, este cuidado amável da conservação, e ainda do aumento, de nossos bens temporais, quando se ofereça ocasião justa para isso e enquanto exigir nossa condição, porque Deus quer que assim o façamos por seu amor.

 

Porém procura que o amor próprio não te engane, porque, às vezes, de tal maneira imita o amor de Deus, que se corre o risco de crer que ambos são a mesma coisa. Para impedir que te engane e que este cuidado dos bens temporais degenere em avareza, além do que disse no capítulo precedente, é preciso praticar com muita frequência a pobreza real e efetiva, em meio de todos os bens e riquezas que Deus nos deu.

 

Desprende-te sempre de alguma parte de teus haveres, dando-os de coração aos pobres; porque dar do que se possui é empobrecer-se algum tanto, e, quanto mais dê, mais pobre será. É certo que Deus te devolverá, não só no outro mundo, mas também neste, porque nada ajuda tanto a prosperar como a esmola; sempre será pobre disso. ¡ Oh! Santa e rica pobreza que nasce da esmola!

 

Ama os pobres e a pobreza, porque, mediante este amor, chegará a ser verdadeiramente pobre, porque, como disse a Escritura, nós nos tornamos como as coisas que amamos. O amor faz igual os amantes. Quem é fraco -disse São Paulo-, que eu não o seja com ele?» E tivesse podido dizer: « Quem é pobre, que eu não o seja com ele?» porque o amor lhe fazia ser como aqueles a quem amava.

 

Se, pois, ama os pobres, será verdadeiramente amante de sua pobreza, e pobre como eles. Então, se ama os pobres, há de andar com frequência entre eles; compraz-te em falar com eles; não desdenhes de que se aproximem de você nas igrejas, nas ruas e em toda parte. Seja com eles pobre de palavra, falando como uma amiga, mas seja rica nas mãos, dando a eles teus bens, porque é possuidora de riquezas.

 

Quer fazer mais, Filoteia? Não se contentes em ser pobre com os pobres, mas procura ser mais pobre que os pobres, de que maneira? «O servo é menos que seu senhor». Faz-se, pois, serva dos pobres. Sirva-os no leito quando estão enfermos, com suas próprias mãos; seja sua cozinheira a sua custa; seja sua costureira e sua lavadeira. Oh, Filoteia! este serviço é mais glorioso que uma realeza.

 

Nunca admirei bastante o fervor com que este conselho foi praticado por São Luís, um dos grandes reis que houve no mundo -grande rei, digo; rei de todo tipo de grandezas- Servia com frequência os pobres, a quem sustentava, e, quase todos os dias, fazia sentar três em sua mesa; com frequência comia de suas sobras, com um amor sem igual.

 

Quando visitava os hospitais (coisa que fazia sempre), ia servir os que padeciam os males mais horríveis, como os leprosos, os cancerosos e outros semelhantes, e lhes servia com a cabeça descoberta e de joelhos, respeitando, em sua pessoa, o Salvador do mundo, e amando-os com um afeto tão terno como o de uma doce mãe para com seu filho.

 

Santa Isabel, filha do rei da Hungria, estava sempre entre os pobres ‘ e, às vezes, se comprazia em aparecer no meio de suas damas vestida como uma mulher pobre, e lhes dizia: «Se fosse pobre, vestiria assim». Ah, amada Filoteia! Que pobres eram este príncipe e esta princesa, no meio de suas riquezas, e que ricos em sua pobreza!

 

«Bem aventurados os que são pobres desta maneira, porque deles é o reino dos céus». «Tinha fome, e me deste de comer; tinha frio, e me cobriste; tomai posse do reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo», dirá o Rei dos pobres e Rei dos reis em seu grande julgamento.

 

Ninguém há que, alguma vez, não tenha passado alguma privação ou alguma falta de comodidades. Às vezes acontece que chega um hóspede, que queríamos e deveríamos agasalhar, e não há maneira de fazer naquele momento; ou temos os bons trajes em outra parte, e nos fazem falta para ir onde temos que ir por compromisso; ou todos os vinhos da adega se perderam porque ficaram azedos: os únicos que temos são ruins e recentes; ou estamos no campo, em uma má cabana, sem cama nem quarto, nem mesa, nem serviço.

 

Finalmente, por rica que seja uma pessoa, é muito fácil que, com frequência, lhe falte alguma coisa necessária; esta é, pois, a maneira de ser pobre nas coisas que nos faltam. Filoteia, alegre-se nestas ocasiões, aceite-as de bom grado e sofre alegremente.

 

Quando sobrevém contratempos, que te empobre pouco a poco, como tempestades, fogo, inundações, esterilidades, furtos, processos, ah!, então tem boa conjuntura para praticar a pobreza, recebendo com doçura estas diminuições de interesses e se adaptando com paciência e constância a este empobrecimento. Esaú se apresentou ao seu pai com as mãos cobertas de pelo, e Jacó fez o mesmo; mas, como o pelo que estava nas mãos de Jacó não era de sua própria pele, mas das luvas, se podia arrancar, sem se incomodar nem martirizar; pelo contrário, como a pele das mãos de Esaú era naturalmente peluda, se lhe quisessem arrancar o pelo, lhe causariam dor; ele teria gritado e se inflamaria para se defender.

 

Quando temos nossos bens no coração, se o mal tempo, ou os ladrões, ou algum trapaceiro nos arrebata uma parte deles, que queixas, que perturbações, que impaciências não sentimos! Mas, quando nossos bens não nos preocupam mais do que Deus quer, e não os temos no coração, se acontece que nos os arrancam ‘ não perdemos, por isso o juízo nem a tranquilidade.

 

É a mesma diferença que existe entre as bestas e o homem quanto ao vestir: a roupagem das bestas está aderida à carne; a dos homens é somente postiça, e podem tirar ou por, segundo lhes apraza.

 

INTRODUÇÃO À UMA VIDA DEVOTA – São Francisco de Sales

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