Santa Teresa Bendita da Cruz – Edith Stein

2 – Itinerário filosófico e religioso

A aceitação serena e consciente deste final pressupõe um amadurecimento humano e espiritual completo, a posse tranquila – nos limites em que isto resulta possível a um ser humano finito – dessa suma Verdade e desse sumo Amor que é o Ser eterno em si mesmo.

A esta meta Edith havia chegado passando por um amadurecimento intelectual e filosófico que se pode considerar já terminado no momento de abandonar o mundo para se entregar à contemplação de Deus, que é sua vocação monástica carmelita.

O que mais chama a atenção em Edith Stein é a clareza de seu objetivo, a persistência infatigável da busca com que perseguiu durante toda a vida. ” A sede da verdade – disse a propósito do tempo que precedeu sua conversão – era minha única oração”. Esta busca, abrindo-se ao Ser divino, se converterá na busca de Deus, não do Deus das abstratas filosofias, mas do Deus pessoal, o Deus de Jesus.

Não nos surpreende pois que, a partir da fenomenologia, Edith Stein chegasse à Escolástica e que neste panorama de luz total sobre o ser pudesse escutar a exigência de abordar uma experiência e uma doutrina de caráter místico.

Nos anos trinta, os vários círculos de pensadores neo-escolásticos enfrentavam frequentemente a relação entre filosofia e mística, interessando-se especialmente pelas diferenças entre as vias propostas por Tomás de Aquino e por João da Cruz para a vida espiritual.

Escreve Dubois: “Era a época dos Congressos Tomistas, dos Estudos Carmelitas, das reuniões de Meudon, em torno a Jacques e Raissa Maritain. Dão testemunho de que, neste momento do pensamento cristão, a vida de oração e a busca da santidade se apresentam como formas da atividade filosófica, na realidade da existência.”

Nessa época, Edith havia amadurecido já a superação da postura de seu mestre Husserl. Seus interesses especulativos gravitavam em torno de São Tomás, e seu espírito se orientava para a experiência mística carmelita, mantendo, apesar de tudo, o profundo sinal de sua iniciação à filosofia na escola de Husserl.

A orientação do pensamento de Husserl atraía seus discípulos. “Cada consciência é consciência de algo. A chave está em voltar às coisas e se perguntar o que é o que dizem de se mesmas, obtendo assim certezas que não procedem de teorias pré-concebidas, de opiniões recebidas e não verificadas. Eram perspectivas estimulantes. Fórmulas como ‘A verdade é um absoluto’, que Husserl havia proposto en sua primeira obra ‘Investigações lógicas’ supunham uma ruptura com o relativismo”. (Dumareau)

Edith havia entrado assim num círculo de pessoas unidas pela paixão pela verdade e por autênticos vínculos humanos. É interessante o testemunho de Hedwig Conrad Martius: “Nascidos do Espírito! Eu quero expressar com estas palavras que não se tratava somente de um método de pensamento e de investigação. Este método constituiu e constitui entre os discípulos de Husserl um vínculo para o qual não encontro melhor comparação que a de um nascimento natural em um espírito comum. Desde o princípio teve que ter um grande segredo, escondido na intenção desta nova orientação filosófica, uma nostalgia de um retorno ao objetivo, à santidade do ser, à pureza e a castidade das coisas.”

Nem sequer Husserl superou o subjetivismo, na realidade a abertura ao objeto, própria da intenção original desta escola na qual se formou filosoficamente Edith Stein, convidava muitos discípulos para avançar, pela via da objetividade, até o mesmo ser.

O que atraiu intensamente Edith Stein foi a abertura direta da consciência ao ser do mundo. “Através desta realidade do ser do mundo Deus nos fala. Ele está aí, atrás, ele só é O que é. Abrir-se à voz do mundo que fala a consciência é abrir-se a Deus, é escutar Deus. O caminho da contemplação está muito próximo.” (J. de Fabrègues)

A posição crítica de Edith a respeito do desenvolvimento da doutrina de Husserl por uma linha que foi denominada de “idealismo transcendental” favoreceu sua aproximação à perspectiva da Escolástica. E o encontro com o Ser infinito fez crescer em seu espírito o gérmen da contemplação.

Procedendo com o método fenomenológico, na perspectiva inicial da adesão à objetividade das coisas, Edith tratou, em sua primeira produção científica, alguns temas de caráter psicológico, comunitário, social. Segundo um dos mais sérios estudiosos de Edith Stein, Reuben Guilead, “há um problema em que se concentra todo seu interesse filosófico: o da pessoa humana. Não é uma casualidade que seus primeiros escritos gravitem sobre questões de natureza psíquica, comunitária e social. Agora, a busca da essência da pessoa humana está unida indisoluvelmente à da dimensão espiritual. Assim que não nos surpreende que, desde seus primeiros escritos, Edith Stein enfrente a questão de uma ontologia do espírito”.