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O vaticanista do «L´Espresso»

Magister: «La ofensiva contra la Iglesia se reviste ahora de aprobación... para reducirla a inocua»

Vaticanista Sandro Magister: «A ofensiva contra a Igreja se reveste agora da aprovação… para reduzi-la a inócua»

O vaticanista Sandro Magister explica seu itinerário e visão da atualidade eclesial a ReL.

Helena Faccia Serrano / ReL – 8 fevereiro 2014 – religionenlibertad.com

Sandro Magister e sua esposa Anna entraram em nossa família pela mão de meu irmão Ivan. Na época eu vivia em Roma, trabalhava no Vaticano e nos víamos sempre. Nossa amizade cresceu; por isso, quando decidi deixar esta cidade e meu trabalho em 2002, seguimos mantendo um contato que nunca se interrompeu.

Em 2011, esta amizade se converteu também em trabalho quando Sandro, em novembro desse ano, em ocasião de sua conferência na Aula “Civitas Dei” da diocese de Alcalá de Henares , cidade que vivo, me ofereceram a possibilidade de trabalhar para ele como tradutora, coisa que aceitei encantada.

Como tradutora de temas relacionados com a religião, a arte e a fé, é um prazer trabalhar para ele: seus textos são interessantes, variados e, porque não dizer, polêmicos às vezes. Mas uma polêmica sadia sempre é positiva.

Estou muito agradecida de que tenha aceitado responder algumas perguntas para Religión en Libertad, publicação com a qual colaboro como tradutora desde julho de 2013.

Para saber algo mais sobre Sandro (data e lugar de nascimento, estudos, leituras e outros), como para ler seus artigos, podem visitar sua página na web em quatro idiomas (italiano, inglês, francês e espanhol): http://chiesa.espresso.repubblica.it/
e no blog em italiano http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/

-Obrigada Sandro, por tua disponibilidade. Você estudou Teologia, Filosofia e História. Por que, então, o jornalismo? Poderia-nos também explicar um pouco dos seus inícios como jornalista: se ocupou sempre de informação religiosa e do Vaticano em particular?

-O jornalismo era meu sonho. Mas cheguei a ele de um modo não programado, graças aos estudos teológicos e por frequentar, na Universidade Católica de Milão, um centro cultural formado por homens de grande valia. Alguns destes, Ruggero Orfei, fundou em 1967 um semanário de política, economia e cultura, “Sette Giorni”, gêmeo do francês “Le Nouvel Observateur”.

 

»Foi ele, conhecendo-me, quem me pediu que escrevesse sobre fatos da Igreja. Três anos depois, em 1970, comecei a trabalhar em tempo integral na redação de “Sette Giorni” como vaticanista, e mudei para Roma.

»Alguns anos depois, em 1975, também como vaticanista, passei a “L´Espresso”, o primeiro semanário político italiano, de marca decididamente laica e progressista, onde ainda trabalho.

-O que se necessita para ser um bom vaticanista sério?
-Antes de tudo se necessita ser especialista na matéria. A Igreja é uma realidade muito especial, única, na qual não se pode aplicar esquemas válidos para outras realidades.

»É esta experiência, atualizada diariamente, com a consequente capacidade analítica, que me permitiu e me permite trabalhar de forma completamente autônoma em uma publicação como “L´Espresso”, muito distante em sua orientação geral da visão cristã.

»Como vaticanista, não brilhei nunca com antecipações e revelações. A caça de indiscrições é alheia a minha pessoa. Nem tive nunca “informantes” secretos nem os busquei. Isto me deu muita liberdade. Meu primeiro compromisso é verificar os fatos, a documentação concreta, a análise do conjunto.

 

-Se não me equivoco, foi vaticanista com Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco… Poderia nos dar sua visão e valorização pessoal, não só como vaticanista, de cada um destes Papas? O que pensa da ofensiva que existe atualmente contra a Igreja?
-Em quase meio século, acompanhei uma extraordinária aventura da Igreja. Nos anos sessenta e setenta, o clima do Concílio e do pós-concílio inspirou em mim uma visão feliz da relação entre Igreja e modernidade, lida esta última em uma chave muito positiva e otimista, também no que concerne ao futuro da fé cristã.

»Apesar disso, ainda tinha minhas reservas sobre a validade das correntes católicas progressistas. As achava frágeis, utópicas, demasiado submetidas às modas correntes.

»Meus teólogos de referência eram aqueles com os quais me tinha formado e que seguia lendo: Jean Danielou, Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar, Joseph Ratzinger. Foram eles, com suas críticas às aberrações pós-conciliares, os que despertaram em mim um análogo espírito crítico.

»Os anos oitenta foram os da mudança em minha análise da Igreja. Após um ceticismo inicial a respeito de João Paulo II, seguiu um apreço crescente de sua obra de reconstrução dos fundamentos da vida da Igreja, que tinham sido postos em perigo pelas grandes ilusões pós-conciliares.

»Com Bento XVI esta obra de reconstrução dos fundamentos chegou em seu momento da verdade, da qual foi prova a ofensiva mortal que a modernidade lançou contra ele e contra a Igreja e, em definitivo, contra o homem.

»Hoje, com o Papa Francisco, esta ofensiva mudou de cara: se reveste de uma aprovação universal e incondicional a suposta “revolução” do novo Papa, mas na realidade seu objetivo é neutralizar a Igreja em uma fumaça indistinta, reduzindo-a a uma realidade inócua e insignificante. O risco é que dentro da mesma Igreja não percebemos esta insídia e tenhamos a ilusão de que com o Papa “bom” e “popular” a sorte gire infalivelmente para um futuro radiante.

-Como poderia superar a Igreja, segundo você, este perigo de redução? Você percebe qual é a tarefa principal da Igreja hoje?
– O Papa Francisco dá no alvo quando anima a Igreja a ir pelo caminho da evangelização. Mas o “reino” que os cristãos são chamados a pregar é o reino de Deus, não o deste mundo. É um reino que exige conversão, não uma chuva de misericórdia que cubra todos e tudo. E não pode haver conversão se não é para algo e, sobretudo, para Alguém que é visto, reconhecido, escutado e adorado pelo que é, não pelo que desejamos que seja ou, pior ainda, que corresponda ao modelo que desejam as potências mundanas.

 

-Você é um apaixonado pela música e arte. De fato, idealizou as transmissões “Nel cuore della domenica. Arte, parola, musica” (“No coração do domingo. Arte, palavra, música) e “Il Credo nei mosaici di Monreale”(“O Credo nos mosaicos de Monreale). Como vê a arte e a música no contexto da fé e da religião hoje? Há hoje artistas e compositores cristãos ou que creem “olhando para o Alto”?
– Durante séculos, a grande arte cristã foi a matriz da visão que incontáveis homens e mulheres tiveram das maravilhas de Deus. Os mosaicos de Monreale , por exemplo, têm a potência de uma resplandescente história sagrada desde a criação ao julgamento, de uma fascinante “summa theologica” ao alcance de todos, tanto dos doutos como dos simples.

»O perigo destes tempos é que em nome de uma suposta “pobreza” se abandone a via da beleza como encontro de Deus com o homem.

»Hoje grande parte do episcopado, do clero e dos fiéis já não sabe ler a arte cristã e isso comporta que já não sabe ler as obras de Deus com a urgência e a força fascinante que a grande arte possui. Não só. Esta difundida cegueira faz que a Igreja não seja mais capaz de instaurar com os artistas um diálogo construtivo.

»Se hoje faltam artistas capazes de realizar grande arte sagrada é, antes de tudo, porque não há “entidades” que estejam à altura. Bento XVI tinha razão quando indicava na arte e nos santos as duas vias mestras que aproximam o homem de Deus. Isto vale tanto para as artes figurativas como para a música.

-Última pergunta: quais são teus projetos para o futuro? Pode nos antecipar algo?
-Confesso que não tenho projetos e que sempre temi fazê-los. Na página da web de notícias, análises e documentos sobre a Igreja, que atualmente é minha atividade principal, tem nascido pouco a pouco, quase por si só, sem que eu tivesse projetado. É muito lida em todo o mundo. Muitos as apreciam. Bom sinal. Quer dizer que trei que seguir oferecendo este serviço. Como programa futuro creio que já é muito.

-Muitíssimo obrigada, Sandro.

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