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«Sempre teve motivos para me parar»

A primeira entrevista de Bento XVI como Papa emérito talhou o perfil de santo de João Paulo II
Os anos de trabalho com João Paulo II prepararam o cardeal Joseph Ratzinger para o pontificado.

Zenit / ReL – 8 março 2014 – religionenlibertad.com

O jornalista polonês Wlodzimierz Redzioch e colaborador de Zenit foi o primeiro a entrevistar Bento XVI desde que é papa emérito. A razão não foi outra que falar de seu predecessor João Paulo II. O volume, intitulado ‘Junto a João Paulo II – Os amigos & os colaboradores contam’, tomaram 21 entrevistas de pessoas próximas ao beato polonês, a primeira delas é de Joseph Ratzinger.

Publicamos a seguir extratos do volume ‘Junto a João Paulo II – Os amigos & os colaboradores contam’ (edições Ares) de Wlodzimierz Redzioch.

Extratos da resposta do Pontífice emérito para a primeira pergunta sobre seu encontro com Wotjyla.
O primeiro encontro consciente que teve com o cardeal Wojtyla foi no conclave em que foi eleito João Paulo I. Durante o Concílio, havíamos colaborado ambos na Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, no entanto foi em seções diferentes, por causa disso não nos tínhamos visto. Em setembro de 1978, em ocasião da visita dos bispos poloneses na Alemanha, eu estava no Equador como representante de João Paulo I. A Igreja de Munique e Freising está unida à Iglesia equatoriana por um união de irmãos realizado pelo arcebispo Echevarria Ruiz (Guaiaquil) e o cardeal Dopfner. E assim, com meu enorme pesar, perdi a ocasião de conhecer pessoalmente o arcebispo de Cracóvia. Naturalmente tinha ouvido falar de sua obra de filósofo e pastor, e há tempos queria conhecê-lo.

Wojtyla, por seu lado, tinha lido minha Introdução ao Cristianismo, que tinha citado também nos exercícios espirituais pregados por ele a Paulo VI e a Cúria, na Quaresma de 1976. Por isso era como se interiormente ambos esperássemos encontrar-nos.

Senti desde o início uma grande veneração e uma simpatia cordial pelo metropolitano de Cracóvia. No pré-conclave de 1978 o cardeal Wojtyla analizou para nós de forma assombrosa a natureza do marxismo. Mas sobretudo percebi em seguida com força a fascinação humana que dele emanava e de como rezava, adverti quão profundamente estava unido a Deus.

Extratos da resposta do Pontífice emérito à segunda pergunta, sobre a nomeação para prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

João Paulo II me chamou em 1979 para me nomear prefeito da Congregação para a Educação católica.

Haviam passado apenas dois anos de minha consagração episcopal em Munique e via ser impossível deixar tão rápido a sede de São Corbiniano. A consagração episcopal representava de alguma maneira uma promessa de fidelidade para minha diocese de pertença. Portanto pedi ao Papa que adiasse essa nomeação […] Foi durante 1980 que me disse que queria me nomear, no final de 1981 como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, como sucessor do cardeal Seper.

Visto que continuava a me sentir em obrigação para minha diocese de pertença, para a aceitação do cargo me permiti por uma condição, que no entanto acreditava irrealizável. Disse que sentia o dever de continuar publicando trabalhos teológicos. Teria podido responder afirmativamente somente se isto fosse compatível com o trabalho de prefeito. O Papa, que comigo era sempre muito benévolo e compreensivo, me disse que se informaria sobre a questão para ter uma ideia. Quando sucessivamente lhe fiz uma visita, me explicou que as publicações teológicas são compatíveis com o ofício de prefeito; também o cardeal Garrone, disse, tinha publicado trabalhos teológicos quando era prefeito da Congregação para a Educação católica. Assim aceitei o encargo, bem consciente da importância da tarefa, mas sabendo também que a obediência ao Papa exigia então de mim um ´sim´.

Extratos da resposta sobre a colaboração entre o prefeito Ratzinger e o Papa Wotjyla.
A colaboração com o Santo Padre esteve sempre caracterizada por amizade e afeto. Esta se desenvolveu sobretudo em dois planos: o oficial e o privado.

O Papa cada sexta-feira, às seis da tarde recebe em audiência o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que deixa para sua decisão os problemas surgidos. Têm preferência naturalmente os problemas doutrinais, os que se acrescentam também as questões de caráter disciplinar: a volta ao estado laical de sacerdotes que solicitaram, a concessão do privilégio paulino para aqueles matrimônios que um dos cônjuges não é cristão, e assim sucessivamente. Continuando se acrescenta também o trabalho em curso para elaborar o Catecismo da Igreja Católica. Em algumas ocasiões, o Santo Padre recebia antes a documentação essencial e portanto conhecia antecipadamente as questões das quais se ia tratar. Desta forma, sobre problemas teológicos podíamos conversar frutuosamente. O Papa era também muito conhecedor da literatura alemã contemporânea, e era sempre bonito –para ambos– buscar juntos a decisão justa sobre todas estas coisas […].

Finalmente, era costume do Papa convidar para comer com os bispos em visita ad limina, como também grupos de bispos e sacerdotes de distinta composição, segundo a circunstância. Eram quase sempre ´almoços de trabalho´ em que sempre se propunha um tema teológico.

[…] O grande número de presentes tinha sempre variada a conversa e de grande alcance. E ficava sempre lugar também para o bom humor. O Papa ria com vontade e assim esses almoços de trabalho, mesmo na seriedade que se impunha, de fato eram também ocasiões para estar em agradável companhia.

Extratos da resposta sobre os desafios doutrinais enfrentados juntos.

A) Sobre Teologia da Libertação

O primeiro grande desafio que enfrentamos foi a Teologia da Libertação que estava se difundindo na América Latina. Tanto na Europa como na América do Norte era opinião comum que se tratava de um apoio aos pobres e que portanto de uma causa que se devia aprovar sem duvida. Mas era um erro.

A pobreza e os pobres eram sem dúvida tema da Teologia da Libertação e mas numa perspectiva muito específica. As formas de ajuda imediata aos pobres e as reformas que melhoram as condições eram condenadas como reformismo que tem o efeito de consolidar o sistema: amainava, se afirmava, a raiva e a indignação que no entanto eram necessárias para a transformação revolucionária do sistema. Não era questão de ajudas e de reformas, se dizia, mas a grande comoção da que devia surgir um mundo novo. A fé cristã era usada como motor por este movimento revolucionário, transformando-a assim em uma força do tipo político. As tradições religiosas da fé eram postas a serviço da ação política. De tal maneira a fé era profundamente distanciada de si misma e se debilitava assim também o verdadeiro amor pelos pobres. [… O Papa continua aqui falando sobre o tema de Teologia da Libertação].

B) Sobre o ecumenismo

Um dos principais problemas de nosso trabalho, nos anos em que fui prefeito, foi o esforço por chegar a uma compreensão correta do ecumenismo.

Também neste caso se trata de uma questão que tem um duplo perfil: por um lado, se afirmava com toda urgência a tarefa de trabalhar pela unidade e de abrir os caminhos que conduzem a ela; por outro lado, é necessário rechaçar as falsas concepções de unidade, que quiseram alcançar a unidade da fé através do atalho de minguar a fé. […].

C) Sobre a tarefa da Teologia na época contemporânea

Por último nós temos nos ocupado também da questão relativa à natureza e à tarefa da Teologia em nosso tempo. A ciência e a união com a Igreja para muitos hoje parecem elementos em contradição entre eles. E no entanto a Teologia pode existir unicamente na Igreja e com a Igreja. Sobre esta questão publicamos uma Instrução.

Extratos da resposta sobre as encíclicas mais importantes de João Paulo II
Creio que são três as encíclicas de particular importância. Em primeiro lugar queria mencionar a Redemptor Hominis, a primeira encíclica do Papa, em que ofereceu sua síntese pessoal da fé cristã […] Em segundo lugar queria mencionar a encíclica Redemptoris Missio […] Em terceiro lugar queria citar a encíclica sobre problemas morais Veritatis Splendor.

A Constituição do Vaticano II sobre a Igreja no mundo contemporâneo, frente à orientação da época, predominantemente Ius naturalis (a lei natural) da Teologia moral, queria que a doutrina moral católica sobre a figura de Jesus e sua mensagem tivesse um fundamento bíblico. Isto se tentou através de indicações durante um breve período, depois foi se firmando a opinião que a Bíblia não tinha uma moral própria para anunciar, mas que dirigia os modelos morais em ocasiões válidas. A moral é questão da razão, se dizia, não de fé.

Desapareceu assim por um lado, a moral entendida em sentido da lei natural, mas em seu lugar não se firmava nenhuma concepção cristã. E como não se podia reconhecer nem um fundamento metafísico nem um cristológico da moral, se recorreu a soluções pragmáticas: a uma moral fundada sobre o princípio do equilíbrio de bens, no qual não existe mais o que é realmente mal e o que é realmente bem, mas só o que, do ponto de vista da eficácia, é melhor ou pior.

A grande tarefa que o Papa teve nesta encíclica foi desenhar novamente um fundamento metafísico na antropologia, como também uma concretização cristã na nova imagem do homem da Sagrada Escritura. Estudar e assimilar esta encíclica permanece um importante e grande dever.

De grande significado é também a encíclica Fides et ratio […] Por último é absolutamente necessário mencionar a Evangelium Vitae, que desenvolve um dos temas fundamentais de todo o pontificado de João Paulo II: a dignidade intangível da vida humana, desde o primeiro instante da concepção.

Extratos da resposta sobre a espiritualidade do Papa polonês
A espiritualidade do Papa se caracterizava sobretudo pela intensidade de sua oração e portanto está profundamente arraigada na celebração da Santa Eucaristia e feita junto a toda a Igreja com a recitação do Breviário.

Em seu livro autobiográfico ‘Dom e Mistério’ se pode ver quanto o sacramento do sacerdócio determinou sua vida e seu pensamento. Assim sua devoção não podia nunca ser puramente individual, mas estava sempre cheia de preocupação pela Igreja e pelos homens […] Todos nós conhecemos seu grande amor pela Mãe de Deus. Doar-se por inteiro a Maria significou ser, com ela, tudo para o Senhor […]

Extracto da resposta sobre a fama de santidade de Wojtyla em vida
Que João Paulo II fosse um santo, nos anos de colaboração com ele me pareceu cada vez mais claro. Sobretudo há que ter em conta naturalmente sua intensa relação com Deus, seu estar imerso na comunhão com o Senhor que acabo de falar. Daqui vinha sua alegria, em meio das grandes fadigas que devia passar e da valentia com que cumpriu sua tarefa em um tempo realmente difícil. João Paulo II não pedia aplausos, nem olhou nunca em volta preocupado em como seriam acolhidas suas decisões. Ele agiu a partir de sua fé e suas convicções e estava preparado também para sofrer os golpes.

A coragem da verdade é aos meus olhos um critério de primeira ordem da santidade. Só a partir de sua relação com Deus é possível entender também seu incansável compromisso pastoral. Doou-se com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo.

Seu compromisso foi incansável, e não só nas grandes viagens, cujos programas estavam carregados de encontros, desde o início até o final, mas também dia após dia, a partir da missa matutina até tarde da noite. Durante sua primeira visita na Alemanha (1980), pela primeira vez tive uma experiência muito concreta deste enorme compromisso. Em sua estadia em Munique, decidiu que devia tomar uma pausa mais longa ao meio dia. Durante esse intervalo me chamou em seu quarto. Encontrei-o recitando o Breviário e lhe disse: “Santo Padre, deve descansar”; e ele: “Posso fazer isso no céu”.

Só quem está cheio profundamente da urgência de sua missão pode agir assim. […] Porém devo honrar também sua extraordinária bondade e compreensão. Sempre teria motivos suficientes parar me culpar ou por fim ao meu encargo como prefeito. E ainda assim me manteve com uma fidelidade e uma bondade absolutamente incompreensíveis.

Também aqui queria dar um exemplo. Frente a tormenta que se tinha criado entorno da declaração ‘Dominus Iesus’ me disse que durante o angelus pretendia defender sem equívoco o documento. Convidou-me a escrever um texto que fosse, por assim dizer, hermético e não permitisse nenhuma interpretação diversa. Devia emergir de forma de todo inequívoca e ele aprovou o documento incondicionalmente.

Portanto, preparei um breve discurso; não pretendia, no entanto, ser demasiado brusco e assim tentei me expressar com clareza mas sem dureza. Depois de tê-lo lido, o Papa me perguntou outra vez: ” É realmente suficientemente claro?” Eu respondi que sim. Quem conhece os teólogos não se assombrará do fato que, depois houve quem disse que o Papa tinha prudentemente tomado distância do texto.

A última frase
Minha recordação de João Paulo II está cheia de gratidão. Não podia e não devia tentar imitá-lo, mas tentei levar adiante sua herança e sua tarefa o melhor que pude. E por isso estou seguro que ainda hoje sua bondade me acompanha e sua bondade me protege.

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