Maran Atá

Muitos sufocam essa luzinha saudosa no coração humano. Essa centelha do além, tão irrequieta, tão fraca e vacilante.

Mas confiem na grande promessa: “Nenhum olhar humano jamais viu. Nenhum ouvido humano jamais ouviu.

Nenhum coração humano jamais sentiu o que Deus reservou à criatura que o ama” (1Cor 2,9)

Perguntemos a quem já esteve perto, já viu albores do futuro, que retornou do terceiro céu, a São Paulo apóstolo:“Desejo morrer e estar com Cristo” (Fl 1,23).

Ouçamos o clamor do coração dos primeiros cristãos:“Maran ata”. “Vem, Senhor, vem” (1Cor 16,22).

E o brado da mística estática, Sta. Teresa d’Ávila:“Morro por não poder morrer”.

E São Luís Gonzaga, moribundo, a exclamar, alegre,exuberante: “Agora vou para casa, vou para casa…”

 

DEUS PRIMEIRO E ÚLTIMO

O regato d’água sempre a correr pela campina verde,proseando seu murmúrio de sempre, saudando por todos os lados, sempre apressado, sem parar, até lançar-se no grande mar. Compreendamos sua preocupação. No momento que pára, vira brejo.

Fomos criados para a vida eterna, não para esta vida mortal. Estamos de viagem, a caminho da luz, da vida, do amor eterno e sem fim.

 

Fim

A humanidade andou nas trevas. O filósofo romano,M. Varro, colecionou e discutiu duzentas e oitenta e oito opiniões da filosofia pagã grego-romano sobre o fim do homem (Cidade de Deus 1,1). Entretanto mais trágico é a lápide tumular da catedral de S. Paulo, em Londres: “Dubius vixi, incertus morior, quo eam nescio” ( “Vivi na dúvida,morro na incerteza, e para onde vou, ignoro”). Mais trágico porque o londrino deve ter lido o prólogo do evangelho de São João e o primeiro capítulo de Romanos.

 

Parábola

Trágico como a parábola do Reino (Lc. 14,15). Os convidados escusam-se um por um. Não têm tempo. O primeiro porque comprou uma fazenda. O segundo comprou uma boiada, que trabalheira! E o terceiro, casou-se.

Todos, pois, sumamente ocupados. E o Mestre manda dizer a quem interessar: “Estes não entrarão no meu reino”.

O epílogo já fora escrito no Antigo Testamento: Ergo erravimus (Sb 5,2). “Erramos no caminho, insensatos, nos enganamos”. Calculamos mal. Remorso tardio e inútil.

Um livre pensador viu uma velhinha recitar o terço:“Boas senhora, pode deixar esta reza. Deus não precisa de sua oração”. “Ora, sim, acredito. Mas eu preciso dela”.

 

Analfabetos

A humanidade passa a sua história à procura de Deus. Uns acham-no. Outros, segundo o famoso ditado de São Paulo (2 Tim. 3,7), fruto de sua experiência pastoral,“estão sempre à procura, sem nunca chegar à verdade…e sua insensatez há de tornar-se manifesta”.

Não os desprezamos mas os lastimamos; nem o beabá chegaram a aprender. Não foram capazes de ler nem sequer a primeira página desse belíssimo e ilustrado livro, no qual Deus descreveu sua existência e sua grandeza.

São como crianças que seguram o livro às avessas e depois choram por não saberem ler.

Vira teu coração às direitas e acharás escrito na primeira página, em letras garrafais: o homem foi criado por Deus, a fim de conhecê-lo, amá-lo e servi-lo. A humanidade hodierna parece-se com tal criança. Está à procura do além. À procura de Deus. E ainda estará quando tocarem as trombetas para o recolher final, para o juízo final.

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting, Sacerdote Redentorista